Um livro para ser lido várias vezes | Ostra feliz não faz pérola

“Contarei o milagre, mas não contarei os santos. Não lhes pedi permissão. Era um lindo casal de brasileiros que faziam estudos avançados na Universidade de Lovaina, na Bélgica. Convidaram-nos para uma recepção e lá foram eles elegantemente vestidos. Música. Danças. Dançavam eles no salão quando notaram que os outros casais paravam de dançar e formavam uma roda ao seu redor, todos a olhar para eles. Pensaram: devemos estar dançando muito bem. Aí capricharam nos passos para não desapontar a plateia até que a música terminou. Ao se aproximarem de um professor amigo ele lhes disse com um divertido sorriso:” É a primeira vez que vejo um casal dançando o hino nacional da Bélgica” .

(Livro Ostra feliz não faz pérola)

Livro: Ostra feliz não faz pérola

Um livro para ser lido várias vezes | Ostra feliz não faz pérolaUm livro para ser lido várias vezes | Ostra feliz não faz pérola

Autor: Rubem Alves

Páginas: 280

Editora: Planeta

Sinopse: O autor define seu livro: “Pessoas felizes não sentem necessidade de criar. O ato criador, seja na ciência ou arte, surge sempre de uma dor. Não é preciso que seja uma dor doída. Por vezes, a dor aparece como aquela coceira que tem o nome de curiosidade. Este livro está cheio de areias pontudas que me machucaram. Para me livrar da dor, escrevi”.

Neste livro, Alves constrói uma teia com diversos pensamentos e citações sobre assuntos fundamentais à sociedade e ao ser humano. Em sessões diferentes, ele comenta sobre a morte, sobre a vida, sobre a religião, velhice, educação, política, saúde mental, natureza, amor e outros diversos temas. Todos eles tratados de forma leve, que prende a pessoa que está lendo do inicio ao fim.

No livro, Alves dialoga com o leitor, faz questionamentos sobre diferentes percepções de vida. Ele não se impõe, pelo contrário, apresenta suas ideias e convida a reflexão. Incrível como a sua narrativa simples e sensível consegue fazer com que a leitura fique ainda mais agradável.

“Há livros maravilhosos que a gente lê uma vez. Não adianta ler à segunda porque já sabe o fim da estória. Outros não contam estória alguma, são feitos de fragmentos inconclusos, e cada fragmento é uma chave para o mundo inteiro” (Livro Ostra feliz não faz pérola).

Difícil fazer uma ‘resenha’ do livro, porque não é um texto simples, padronizado, fechado. Pelo contrário, Ostra feliz não faz pérola é um convite à análise (seja sobre a vida ou sobre a morte).

Gosto especialmente do título, acho que uma das coisas mais linda que já li.

Rubem Alves é simplesmente incrível, e seus textos que fazem parte do livro são maravilhosos. Claro que tem alguns ao qual eu não concorde muito, mas sobre isso não tenho nada a acrescentar, porque continua sendo maravilhoso de todo o jeito. Acho que vocês estão aí pensando que estou me referindo muito bem ao livro, e que isso cheire a alguma forma de merchan. Mas não caro leitor, quem teve o prazer de ler Rubem Alves sabe do que estou escrevendo.

Mas para não ficar apenas em minhas palavras, confira outros trechos do livro:

“Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostras felizes porque de dentro de suas conchas saída uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário.

Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste. As ostras felizes se riam dela e diziam: “Ela não sai da sua depressão”… Não era depressão, era dor. Pois um grão de areia havia entrado dentro da sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor. O seu corpo sabia que para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de sua aspereza, arestas e pontas, bastava envolve-lo com uma substancia lisa, brilhante e redonda.

Assim, enquanto cantava seu canto triste, o seu corpo fazia o trabalho – por causa da dor que o grão de areia lhe causava. Um dia, passou por ali um pescador com o seu barco. Lançou a rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada. O pescador se alegrou, levou-as para casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras, de repente seus dentes bateram num objeto duro que estava dentro de uma ostra.

Ele o tomou nos dedos e sorriu de felicidade: era uma linda pérola. Apenas a ostra sofredora fizera uma pérola. Ele a tomou e deu-a de presente para a sua esposa. Isso é verdade para as ostras. E é verdade para os seres humanos. No seu ensaio sobre o nascimento da tragédia grega a partir do espírito da música, Nietzsche observou que os gregos, por oposição dos cristãos, levavam a tragédia a sério.”

“Deus é isto: A beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também”.

Embora já houvesse lido alguns textos de Rubem Alves, Ostra feliz não faz pérola foi à primeira obra completa que li deste autor. Assim como ocorrera outrora com os textos soltos, posso afirmar que o livro é um primor que nos conduz a uma celebração da vida.

Sem dúvida, uma obra digna de ser lida, relida, dessas que deixamos em nossa cabeceira, sempre à mão! Se eu tivesse condição de presentear um livro para cada um dos meus companheiros do Recreio, sem dúvida seria esse. Mas como não tenho condições deixo apenas um pouco do livros com vocês.