Se Liga | Entrevista com Douglas Marques

Ele tem opinião forte, talento para escrita, um senso de humor inconfundível, além de ser um dos comentaristas mais queridos e respeitados do TV Foco. É um recordista sensato e presidente fundador do “Estado Recordista.” Hoje, recebo com muito alegria, o meu amigo Douglas Marques!

Teteu: Para começar, defina o Douglas (você mesmo) com apenas uma palavra. Por quê?

Douglas #ODM: Insatisfeito. Porque é a insatisfação que me move, de certa forma. Eu nunca estou acomodado com determinada situação, por melhor que ela esteja. Eu sempre quero mais(não no sentido de ser ganancioso), e eu considero isso uma definição do que eu sou e da minha forma de agir.

Teteu: Você, sem dúvida, é um dos melhores comentaristas do TVF. Como, e quando você conheceu o site?

Se Liga | Entrevista com Douglas Marques
Se Liga | Entrevista com Douglas Marques

Douglas #ODM: Conheci o TVF pela primeira vez em 2010, por influência de outros blogs de TV. Nessa época o TVF tinha uma certa fama, mas ainda não era grande como é hoje e não possuía essa quantidade enorme de comentaristas. Ele era visto mais como um “gigante morto”, porque era um blog bem trabalhado, com layout de primeira, mas não possuía grandes seguidores como os blogs, O Canal e o NTB, nos quais eu comentava todos os dias (a concentração dos fãs de TV estava lá, na época). Em 2014 voltei a acompanhar o TVF, mas só para ver notícias, até que no começo de 2015, ao ver que os fãs de TV estavam concentrados no TVF (inclusive o Andrei, a quem eu conhecia há anos já), decidi voltar a comentar e viciei.

Teteu: Quando se fala em recordista, a primeira pessoa que vem na cabeça é você. O que te faz ser um admirador da Record?

Douglas #ODM: Minha admiração pela Record começou em 2008, durante a grande ascensão recordista. Eu não acompanhava sua programação, ficava mais no SBT (eu não tinha alergia na época), então pode-se dizer que já fui mofista. Quando comecei a acompanhar mais a programação da Record, passei a gostar da proximidade e humildade que os artistas da emissora tinham com o telespectador. Era algo muito diferente da Globo, e aquilo me cativou. Aos poucos virei fã de todos os programas da Record, em especial o Show do Tom e o excelente 50 por 1, que continua sendo o programa da Record que mais transmitiu cultura. Como os programas da emissora me encantavam, eu passei a torcer pelo sucesso deles, e a acompanhar a audiência. Isso fez eu desenvolver um senso de torcida enorme, ser cada vez mais fã da Record e torcer cada vez mais pela liderança dela. O fato de eu ter uma tradicional simpatia por quem vem de baixo e tenta alcançar o topo também influenciou muito na minha “conversão” à Record.

Teteu: Para você, em relação ao conteúdo e programação, a Televisão brasileira progrediu o regrediu?

Douglas #ODM: Nem um e nem outro. A TV brasileira é o reflexo do povo brasileiro. As emissoras baseiam-se no gosto popular ao exibir todo o conteúdo que exibem. Como o povo tradicionalmente não gosta do bom conteúdo, a TV brasileira nunca deixou de ser sensacionalista, exploradora e fútil(claro que este é um resumo da maioria do que se vê, porque há sim programas que se salvam). E as emissoras nunca deixaram de ter conteúdos assim, porque se passarem a exibir programas que transmitem cultura, acabarão tendo a mesma audiência da TV Cultura. Então, a TV brasileira não regride, pois não há como ficar pior, e nem progride, porque o medo da não-aceitação do público não permite o progresso. É um caso de permanente estagnação.

Teteu: A Globo é, há um bom tempo, a emissora líder de audiência em todo o país, com uma distância considerável, na média geral, em relação às concorrentes mais próximas. No futuro, você acha que essa emissora pode perder esse favoritismo?

Douglas #ODM: Não só pode, como vai. Porque a característica de todo grande império é a certeza de que um dia ele vai cair (e isso nada tem a ver com uma discussão de se merece ou não cair). Mas fazer a Globo perder o favoritismo é uma tarefa chata, porque a Globo não é apenas uma emissora, ela é um elemento que faz parte da cultura do brasileiro. Ela sempre fez parte do cotidiano dos brasileiros. É como o Bombrill e a Gillette: deixaram de ser meras marcas e, de tão presentes que são, e de tão monopolistas que são, viraram expoentes consolidados. Ninguém fala “lâmina de barbear”, falamos Gillette, da mesma forma que falamos Bombrill, e não “lã de aço”. Com a Globo é assim, ela sempre foi tão presente que acabou por se solidificar, virou um marco. E tirar da Globo este status de influência ante aos brasileiros será um desafio monumental para a Record (apenas para a Record, porque o SBT já jogou a toalha, basta ver o discurso do Sílvio). Mas quando você vê ODM fazendo o impensável no horário nobre, você começa a perceber que nenhum domínio é eterno. A Globo está caindo, e só não perdeu a liderança de vez ainda porque a Record continua sem encontrar uma fórmula de manter seus sucessos e transformar o lampejo em algo mais consolidado.

Teteu: Em 1995, a Rede Globo exibiu uma minissérie chamada “Decadência”, causando uma grande polêmica com as pregações religiosas de Mariel (pastor charlatão), personagem de Edson Celulari, que chegou a citar frases ditas pelo líder da Igreja Universal do Reino de Deus, o bispo Edir Macedo. Você acha que essa minissérie influenciou a opinião da sociedade em relação a Pastores e Evangélicos? Qual a sua opinião sobre o assunto?

Douglas #ODM: Com certeza influenciou. Minha opinião é que a arte possui seus limites. Antes de pôr alguma atração na tela, você tem que ter consciência do seu papel ante a sociedade. O que é a Globo ante a sociedade? Um instrumento formador de opinião, capaz de influenciar facilmente milhões de pessoas. Você pode usar isso para o bem, para o mal, ou de maneira irresponsável. Retratar evangélicos da forma que a Globo retrata é uma atitude, senão intencionalmente maldosa, extremamente irresponsável, porque a imagem que você está transmitindo aos brasileiros a respeito deste grupo vai influenciar boa parte da sociedade a criar seus preconceitos. Isso é inegável. Por isso eu acho que falta mais responsabilidade à Globo.

Teteu: Vamos mudar um pouco de assunto. Nos últimos meses, temos visto diversas manifestações contra o governo do PT. Douglas, você concorda com o impeachment da Presidente Dilma Rousseff?

Douglas #ODM: Poucas frases são um consenso entre nós como a famosa “Vivemos em um país democrático”. Todo mundo ama repeti-la, tanto que ela virou um clichê. Democracia é o poder da maioria. Se pegarmos os resultados das últimas pesquisas de opinião feitas com milhares de brasileiros, podemos constatar facilmente o que a maioria pensa sobre a Dilma: a maioria esmagadora quer a sua renúncia. Então, obviamente, concluímos que o Impeachment da Dilma é um ato democrático. Por isso, sim, eu concordo.

Teteu: Para você, o Brasil tem solução?

Douglas #ODM: A solução do Brasil está nos brasileiros. Se os brasileiros mudarem sua mentalidade, o Brasil muda no dia seguinte. Por isso eu diria que, sim, tem solução, mas está distante. Uma revolução tem de acontecer neste país, para que ele mude. Não algo igual aos protestos de 2013, porque aquilo foi uma Revolta. Revolta é manifestação sem efeitos permanentes, e Revolução é a manifestação que gera uma mudançaradical, seja no sistema ou na mentalidade de quem o compõe.

Precisamos de um povo que saiba o que quer, saiba o que está errado, saiba o que é preciso para melhorar, e saiba as formas e a quem devem pressionar para obter esta melhora. Mas falta-nos objetividade. Toda vez que o brasileiro vai para rua, ele grita contra tudo, mas não é objetivo – ele acha que sabe o que quer, mas não sabe. Precisamos de algo parecido com a Revolução Francesa, quando o povo foi às ruas com um objetivo, que era a queda da monarquia, e com razões para tal, que eram os altos impostos e a precariedade em que viviam. Ou seja, eles tinham um objetivo, e nós? Só sabemos gritar “Fora Dilma”, e não sabemos explicar exatamente as razões específicas pelas quais ela deve renunciar. Por que não sabemos? Porque não nos informamos. E não nos informamos porque nossa mentalidade ainda não mudou.

Teteu: Voltando para o assunto TV, vou citar alguns programas e quero saber sua opinião sobre determinada atração.

Douglas #ODM: Estagnou-se, parou no tempo. Não inova mais, só repete o que já deu certo no passado.

Douglas #ODM: Um marco, o maior orgulho da Record. Nunca uma atração recordista repercutiu tanto.

Douglas #ODM: Uma bagunça, e por isso é divertido. Depois do The Noite, é meu programa favorito do Mofo.

Douglas #ODM: Está perdido. É um programa sem identidade, cuja atração principal não se renova: é sempre a Xuxa.

Douglas #ODM: Nunca uma novela brasileira atingiu um nível de qualidade tão grande.

Douglas #ODM: Não assisto, mas reconheço sua importância. Em um mundo cada vez mais dominado pela perversão, precisamos de atrações como esta, que ajudam a manter a inocência das crianças.

Douglas #ODM: Não assisto, mas sei que é tapete da Fabíola.

Douglas #ODM: Mais do mesmo.

Douglas #ODM: Um verdadeiro e legítimo programa de variedades, muito bem conduzido e em certos momentos é até útil e informativo como poucos programas na TV brasileira conseguem ser.

Teteu: Temos agora algumas perguntas de amigos e leitores.

Douglas #ODM: Esse interesse vem de uma vontade que eu sempre tive de opinar a respeito de assuntos que me instigam a isso. Muito do que está na TV reflete os Tabus da nossa sociedade, a discussão sobre a nossa moral, sobre o que é certo ou errado, sobre atitudes, caráter, ética… E tudo isso sempre foi um atrativo para pessoas que, como eu, gostam de opinar. Tudo o que presenciei de positivo no TVF vem das brincadeiras que acontecem lá. Essa rivalidade entre emissoras é algo sensacional, que se aproxima de uma rivalidade entre clubes de futebol, e eu gosto disso, porque isso gera brincadeiras que me fazem rir e gera também um ambiente muito agradável. O lado negativo sempre fica por conta dos momentos em que as pessoas estragam um ambiente assim. Pessoas que ofendem seriamente.

Douglas #ODM: Foi bom você citar o Estado Recordista, porque eu fiquei de anunciar que o nosso grupo está mantendo o Bates em cativeiro há 3 meses já, apesar de ele não assumir isso. Estamos o submetendo a sessões de tortura inimagináveis, como obrigá-lo a assistir 4 horas seguidas de Dona Xepa e cantar a música tema do Balanço Geral. Sobre assistir programas das concorrentes, eu faço isso sim. Da Globo, só o Fantástico e uma espiada rápida em ARDJ. Do SBT, vejo o The Noite(que é meu programa preferido em toda a TV), Ratinho e o “Mofey, Pessoal!!”. Da Band, eu assisto o Canal Livre, MasterChef, O Mundo Segundo os Brasileiros e às vezes o Pânico. Da RedeTV, só a Sônia Caixão, às vezes.

Douglas #ODM: O pior ainda está por vir. Estamos prestes a entrar no segundo ano de recessão; perdemos o status de potência emergente do BRICS; estamos prestes a ser rebaixados em mais uma agência de classificação de risco; e o processo de impeachment, apesar de ser necessário e ter meu apoio, vai piorar a situação econômica do país mais ainda. O que eu acho, sinceramente, é que este é o momento de sermos empreendedores. O empreendedor é aquele que enxerga as necessidades das pessoas e elabora meios para atender e solucionar tais necessidades. Em tempos de crise, apenas pessoas assim conseguirão reerguer o país. É assim que penso que devo ser, quando penso em meu futuro.

Douglas #ODM: Isso vem muito da minha curiosidade, que é resultado da minha insatisfação, que citei no início desta entrevista. Desde pequeno eu sempre quis saber o “porquê” das coisas, e aos poucos eu fui descobrindo todos eles. Eu diria que isso surgiu quando eu estava na 5ª série do fundamental. Nós tínhamos que ler livros pra fazer uma prova e conseguir 1,0 ponto extra. No início eu só lia por interesse neste ponto extra, mas depois peguei o hábito e isso ajudou muito. Mas isso é também, acima de tudo, um desejo de ser entendido. Quando você quer ser entendido, você dá o seu máximo ao se expressar, e o resultado é que com o tempo você acaba por se expressar bem. Senso crítico também é importante, e foi algo que meus professores desenvolveram em mim.

Douglas #ODM: Nem tanto (Risos). Eu sou sociável apenas quando uma determinada situação exige isso de mim. Calmo e paciente eu sempre fui. Extrovertido e brincalhão, só quando estou entre amigos e pessoas com quem tenho intimidade. Mas, no geral, sou retido, quieto e apenas observo.

Teteu: Douglas, muito obrigado pela entrevista, ficou sensacional!

Douglas #ODM: Queria agradecer a você, Matheus, pela oportunidade de estar expondo meus pensamentos aqui nesta entrevista. Um abraço também ao Danilo, ao xará Douglas, ao Jack e a Rosa pelas perguntas que enviaram e a todos os meus amigos do TVF, sejam eles globistas, recordistas ou sbtistas (que tem que vir em terceiro, claro! (Risos, Brincadeira). Queria pedir desculpas também pelo tamanho das respostas. Eu sei que é cansativo, mas falar demais é algo que é mais forte que eu (Risos). Um abraço a todos!

Teteu: Obrigado, até a próxima!

Relacionado