Os senadores congelam os salários dos funcionários públicos. Guedes chama de “crime”

Estamos lidando com uma decisão do Senado sobre os salários dos funcionários públicos que visa impactar a plataforma de poupança do governo. As projeções para a economia brasileira estão melhorando, mas a população ainda está pessimista. E o governo ameaça adiar o censo por mais um ano.

O Senado está congelando os salários dos funcionários em um mau presságio para o plano de corte de custos do governo

O Senado brasileiro derrubou um veto presidencial que bloqueou os aumentos salariais dos funcionários públicos em 2020 e 2021. A medida foi interrompida com um acordo entre o Congresso e o governo em abril: legisladores concordaram em congelar os salários dos funcionários públicos em troca de um plano de assistência financeira de R $ 125 bilhões aos governos estadual e municipal.

Por que isso importa. Segundo especialistas do governo, o descongelamento dos salários representaria um custo adicional de R $ 98 bilhões. E é um mau presságio, já que o Congresso está pronto para votar outros vetos presidenciais que, se esmagados, terão implicações fiscais significativas em um governo já com problemas financeiros.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e o ministro da Economia, Paulo Guedes. Foto: Pedro França / Ag.Senado
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e o ministro da Economia, Paulo Guedes. Foto: Pedro França / Ag.Senado

Como aconteceu no Senado. Explicamos como todo esse processo evoluiu:

  • Em contradição com o presidente da Câmara dos Comuns, Rodrigo Maia, o ministro da Economia Paulo Guedes garantiu que o acordo sobre uma operação de resgate de estados e municípios seja elaborado no Senado. Mas sem o apoio do porta-voz, a única condição para a ajuda – o congelamento dos salários dos funcionários – encontrou resistência ao chegar em casa.
  • A essa altura, o chicote do governo propôs ao major Vitor Hugo uma emenda que incluía várias isenções de congelamento. No entanto, o presidente Bolsonaro vetou essa mudança e o projeto de lei foi aprovado conforme pretendido por Guedes.
  • Na quarta-feira, o governo foi “cegado” pelo Senado, de uma vez que um irado Guedes chamou de “crime contra o povo”.
  • “Esperemos que a casa salve o dia”, disse o ministro da Economia, que agora depende dos esforços do porta-voz Rodrigo Maia, o homem que ele tentou minar em abril.

Resultado final. Do início ao fim, este episódio é um exemplo clássico de como o governo não foi capaz de promover sua própria agenda no Congresso, apesar de Jair Bolsonaro ter usado recentemente uma grande dose de comércio de cavalos em seu governo. Além disso, mostra que a massiva reforma administrativa que Paulo Guedes defende é um sonho distante da realidade.


Os investidores estão mais otimistas com a economia. Trabalhadores não são

Como mostramos no Daily Briefing de ontem, os brasileiros estão mais otimistas com a pandemia. Mais e mais pessoas acreditam que a disseminação do coronavírus está melhorando em vez de piorar. No entanto, esse otimismo ainda não se espalhou para a economia.

Pelos números. De acordo com o levantamento Datafolha, 4 em cada 10 brasileiros acreditam que o cenário econômico do país vai piorar no futuro próximo e têm expectativa de aumento do desemprego, da inflação e da queda acentuada do poder de compra.

  • Apenas 29% acreditam que as condições econômicas vão melhorar. Em dezembro de 2019, essa taxa era de 43%.
  • O pessimismo é mais comum entre grupos populacionais com posições mais precárias no mercado de trabalho: mulheres (46%), jovens de 16 a 24 anos (45%), trabalhadores de baixa renda (42%) – mas também entre pessoas com ensino superior (46%) .

Entretanto … Investidores e analistas de mercado melhoram suas projeções para o Brasil. O relatório de foco do banco central – uma pesquisa semanal com firmas de investimento de classe mundial – mostrou uma melhora nas previsões de crescimento do PIB pela sétima semana consecutiva, de -6,54% no final de junho para -5,52% agora.

  • O Credit Suisse mudou sua previsão para o Brasil e prevê uma taxa de crescimento de -5,2 por cento para 2020 (anteriormente -6,5 por cento). “Argumentamos que a atividade econômica poderia surpreender positivamente, dados os altos incentivos fiscais e monetários e a flexibilização das medidas de distanciamento social”, escreveram os economistas Leonardo Fonseca e Lucas Vilela.
  • A Consultoria Capital Economics também revisou sua projeção para o Brasil de -7 para -5 por cento em 2020. Um declínio de 10 por cento é previsto para o segundo trimestre, seguido por uma expansão de 7 por cento no terceiro trimestre para compensar algumas das perdas. “Dados recentes – como pesquisas e números de geração de energia – sugerem que a recuperação continuou em julho e agosto”, escreveu William Jackson, economista-chefe da consultoria de mercados emergentes.

Plano do governo não faz censo

A pandemia impossibilitou o censo de 2020 – e ele foi adiado para 2021. Agora, porém, o governo federal está pronto para adiar a defesa por mais um ano e usar o dinheiro (cerca de R $ 2,3 bilhões – $ 414.000) para reforçar o orçamento de defesa brasileiro.

Por que isso importa. O censo é muito mais do que apenas um número de funcionários. É a melhor fonte de dados para avaliar como vivem os brasileiros. Isso é especialmente importante para os municípios que dependem dos dados para tudo, desde o planejamento da saúde até o planejamento municipal – e determinam a alocação de recursos federais.

  • Também é usado por investidores e agências internacionais para avaliar o Brasil em relação a outros países.

O que você diz. O governo está usando o mapa da pandemia para exigir a mudança, um argumento que se mantém. A coleta de dados é baseada quase exclusivamente em entrevistas pessoais. Espera-se que mais de 180.000 pesquisadores visitem 71 milhões de famílias.

Sim mas … Integrantes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística alertam que a medida desperdiçaria o dinheiro já gasto na preparação do próximo censo. Os trabalhadores temporários já treinados devem ser desmobilizados e o banco de dados de endereços a serem visitados novamente atualizado.

  • Mais importante, porém, é o fato de que essa mudança significaria que o Brasil teria que contar com números desatualizados de 2010 para a formulação de políticas públicas.

Problemas. O próximo censo já foi cercado de polêmica depois que o governo decidiu encurtar o questionário para torná-lo mais barato.


O que mais você precisa saber hoje?

  • Petróleo e Gás 1. Em julho, as reservas de petróleo salgado em águas profundas representaram mais de 70% da produção brasileira total de petróleo e gás pela primeira vez. Segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP), o Brasil produzia 3,89 milhões de barris por dia.
  • Petróleo e Gás 2. A Comissão de Valores Mobiliários deve decidir na próxima semana um caso envolvendo a gigante estatal Petrobras de 2016. A ex-presidente Dilma Rousseff, seu então ministro da Fazenda Guido Mantega e vários outros conselheiros são acusados ​​de não terem cumprido suas obrigações fiduciárias para com os investidores na liquidação da refinaria de petróleo Abreu e Lima. Devido à incompetência e corrupção, custou à empresa oito vezes o orçamento original de US $ 2,3 bilhões.
  • Trabalho. O governo deve emitir um decreto que ampliará a possibilidade de as empresas suspenderem os contratos de trabalho ou reduzirem suas horas e salários por mais dois meses. A regra visa reduzir as dispensas e garantir alguma estabilidade no mercado de trabalho. De acordo com o Ministério da Economia, foram realizados 16,2 milhões de comparações entre profissionais e empresas.
  • Redundâncias. A Volkswagen planeja cortar 35% de sua força de trabalho no Brasil, o equivalente a demitir 5 mil pessoas, incluindo trabalhadores nas linhas de produção e nos escritórios administrativos.
  • Estímulo. O governo estendeu um programa de ajuda por três meses para ajudar as pequenas empresas a lidar com a crise, e o presidente Jair Bolsonaro assinou um projeto de lei que prevê mais R $ 12 bilhões.
  • Diplomacia. O embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Scioli, disse que seu chefe, o presidente Alberto Fernández, estava pronto para enterrar a machadinha com seu homólogo brasileiro Jair Bolsonaro. Os dois discordaram em muitos assuntos e trocaram palavras duras na imprensa no passado. De acordo com Scioli, Buenos Aires quer um vínculo direto com o governo brasileiro para avançar uma agenda comum sobre infra-estrutura e regulamentação da viticultura.
  • (Sem) transparência. Apenas dois dias após registrar o maior número de novas mortes diárias por coronavírus, o governo de Brasília decidiu mudar o processo de divulgação de dados. As autoridades dizem que seus relatórios diários incluem apenas o número de mortes ocorridas nas últimas 24 horas para evitar “desconforto” entre os cidadãos – não o número total de mortes confirmadas em um determinado dia, incluindo aquelas que ocorreram anteriormente. Espera-se que isso distorça os dados significativamente e reduza artificialmente o número de mortos. O governo federal tentou dar o mesmo passo em junho, mas o Supremo Tribunal Federal os obrigou a publicar todos os dados.[/restricted]

Os senadores dos cargos congelam o pagamento dos funcionários. Guedes chama de “crime” o que apareceu pela primeira vez na reportagem brasileira.