O Covid-19 acelera o genocídio contra brasileiros nativos?

Em 8 de junho, o chef José Carlos Ferreira Arara, conhecido como Zé Carlos, sentiu falta de ar e fadiga. Ele foi trazido de sua aldeia no estado do Pará, para o Hospital Geral de São Rafael, em Altamira. Quando sua condição piorou, não havia vagas na unidade de terapia intensiva do hospital regional – mas não havia tempo para transferi-lo para outra unidade. Ele morreu de parada cardíaca em 9 de junho devido a complicações de uma infecção por coronavírus. Ele tinha 41 anos.

Informações sobre a morte de Zé Carlos se espalharam no Facebook e na mídia. O Instituto Socioambiental (ISA), uma ONG ambiental com sede em Brasília, publicou um eloqüente post sobre sua vida e legado. Um líder forte e carismático que conheceu o cineasta James Cameron e o ator [and former California Governor] Arnold Schwarzenegger, quando eles visitaram a região há uma década, viviam Zé Carlos a poucos quilômetros do local onde a polêmica barragem de Belo Monte foi construída no rio Xingu.

Durante anos, ele se juntou a uma coalizão de grupos ativistas que protestaram contra a construção da barragem, destruindo completamente o modo de vida de sua comunidade.

“A morte de Zé Carlos é uma grande perda”, escreveu Marcelo Salazar, do ISA. “Apesar de todos os esforços das instituições governamentais e não governamentais, das advertências dos próprios líderes indígenas e do envio de alimentos básicos e ferramentas para apoiar o distanciamento social nas comunidades, não foi possível combater a chegada do vírus nas aldeias. Segundo Salazar, Zé Carlos havia levantado preocupações nas últimas semanas sobre o risco de garimpeiros e lenhadores ilegais atravessarem áreas indígenas e infectarem membros da tribo.

O Covid-19 acelera o genocídio contra brasileiros nativos?
O Covid-19 acelera o genocídio contra brasileiros nativos?

Apesar dos relatórios publicados, o Sesai – a agência federal responsável pelo rastreamento de mortes de indígenas por vírus no Brasil – não tinha registros no momento em que escrevia que Zé Carlos havia morrido em seu site. A omissão não é surpreendente. No final da semana passada, o Ministério da Saúde brasileiro encerrou e reabriu seu painel oficial on-line para o Covid-19, omitindo o número total de pessoas infectadas e mortas – até que o Supremo Tribunal o obrigou a relatar todos os números.

A falta de dados do Covid-19 entre comunidades indígenas

Os dados do Covid-19 são ainda mais difíceis de determinar para infecções e mortes nativas do que para a população brasileira em geral. Segundo o Sesai, houve 2.749 infecções confirmadas em 34 distritos indígenas, com 97 mortes confirmadas pelo Departamento de Saúde Indígena. Mas os antropólogos não confiam nesses dados.

Vânia Fialho, professora da Universidade de Pernambuco e da Universidade Federal de Pernambuco, diz que é mais seguro seguir dados fornecidos pela Associação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) ou por instituições que tentaram oficializar o Sesai Combine resultados com dados coletados de organizações indígenas. Em 9 de junho, sua pesquisa mostra que 2.886 pessoas foram infectadas com 256 mortes.

Ainda mais impressionante: Fialho identificou 89 mortes por Covid 19 nos primeiros oito dias de junho, triplicando o número total de mortes em abril.

O professor de antropologia Renato Atias, colega de Fialho em Pernambuco e um dos fundadores da rede interdisciplinar Remdipe, que monitora os direitos dos povos indígenas em seu estado, reclama da manipulação de dados pelo governo do presidente Jair Bolsonaro. “Esses dados são muito importantes para fazer análises epidemiológicas”, disse ele. “O que está acontecendo atualmente na saúde indígena? O sistema de informação está simplesmente fechado. ninguém pode ter acesso. O que deveria ser público agora é privado e só tem acesso aos gerentes. “

A falta de acesso e dados verificáveis ​​agrava o problema no local, disse um médico de saúde pública que trabalha com brasileiros indígenas há anos e insistiu em permanecer anônimo por medo de comprometer os esforços para salvar vidas. O médico disse que, sem uma noção real da magnitude do problema, a equipe médica não pode se preparar para obter uma resposta abrangente e robusta que enfraquece a propagação do vírus.

Segundo Fialho, essa disseminação dentro das comunidades indígenas já excede a taxa de mortalidade do público brasileiro. Ele calcula uma taxa de mortalidade de 8,8% entre os povos indígenas – em comparação com uma taxa de 5,2% na população em geral.

Uma maior taxa de mortalidade é devido a vários fatores, disse o médico, que se recusaram a ser identificados. Esses fatores incluem um aumento da prevalência de diabetes e doenças cardiovasculares, doenças pulmonares crônicas, como tuberculose, e o fato de a maioria das comunidades indígenas não ter a infraestrutura básica de higiene, água e saneamento. O médico também descobriu que a média de idade das vítimas de Covid 19 entre os nativos é muito menor do que a da população em geral.

O vírus Corona é apenas uma das várias ameaças

Segundo especialistas, o vírus se espalha de várias maneiras nas comunidades indígenas, principalmente pelo contato com ladrões de terra não indígenas. Encorajadas e empoderadas pelo governo federal, empresas agrícolas e garimpeiros vêm invadindo terras indígenas desde a posse de Bolsonaro. Essas invasões, dizem os especialistas, continuaram inabaláveis ​​durante a pandemia.

Como o Covid-19 se espalha pelas comunidades indígenas, tem muito a ver com o local em que essas comunidades estão localizadas, diz Maria de Lourdes Beldi de Alcântara, antropóloga médica da Universidade Federal de São Paulo que trabalha com jovens indígenas na Amazônia desde 1999. é amplamente considerado como o epicentro do surto dos povos indígenas. Alcântara defende Dourados, no estado de Mato Grosso do Sul, como a segunda região infectada mais comum. Lá, diz ela, cerca de 18.000 indígenas guarani vivem no menor espaço da maior reserva do Brasil, nos arredores de Dourados, uma cidade com mais de 200.000 habitantes.

Enquanto Alcântara diz que ainda não tem mortes na Reserva Guarani, ela está preocupada com os próximos meses. “Eles não têm suprimentos ou hospitais para acomodar pacientes ou respiradores”, disse ela. “Eles não têm condições básicas de sobrevivência”. Como o Sr. Atias, ela acredita que o Brasil sente falta dela. “Você tem o direito de ser apoiado por um único sistema de saúde, o sistema público de saúde brasileiro”, disse ela. “Você tem o direito de escolher o que é melhor para você. No entanto, o governo brasileiro nunca respeitou esse diálogo. “

Alguns especialistas dizem que a situação terrível para os aproximadamente 900.000 povos indígenas do Brasil durante a pandemia de Covid 19 foi exacerbada por uma agenda racista que Bolsonaro havia definido desde sua campanha, quando prometeu não dar uma polegada de terra aos povos indígenas. Comunidades – e chamou a National Indian Foundation de uma entidade desnecessária. & nbsp;

Eles também descobriram que seu governo promoveu mudanças ambientais radicais em menos de 16 meses, incluindo: o fechamento do Departamento de Prevenção e Controle do Desmatamento; a destruição da Lei Florestal, a lei brasileira de gestão de terras de 2012, exigindo que os proprietários mantenham 80% de suas terras como florestas; o fim da criação de novas áreas protegidas na Amazônia e, sobretudo, o enfraquecimento do sistema de controle do crime ambiental, que reduziu significativamente o número de multas por desmatamento ilegal, normalmente impostas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis ​​(Ibama) foi).

Está bem documentado que a abertura do país indígena à indústria agrícola, mineração e outros interesses privados levou a um aumento múltiplo de ataques e assassinatos contra povos indígenas. Com o Covid-19, alguns especialistas temem o genocídio, que por definição é o extermínio deliberado de um determinado grupo de pessoas.

“Esses grupos já estavam em risco”, disse o médico, que se recusou a ser identificado. “Agora eles estão sendo exterminados. Não tenho medo de dizer isso.”

Felipe Milanez, professor de humanidades da Universidade Federal da Bahia, em Salvador, descreveu o que estava acontecendo com os povos indígenas como uma crise humanitária. “O governo tem o poder de agir, mas não quer”, disse ele. “O mundo tem que ter cuidado. Todos nós temos que unir forças para enfrentar esse desafio juntos. “

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