Fernando Pessoa: seus pseudônimos, hábitos e curiosiodades

Criado na África do Sul, o poeta português tinha no inglês a sua segunda língua. Seus primeiros poemas foram publicados em inglês. O primeiro livro em português só sairia uma década depois.

Das quatro obras que Fernando Pessoa publicou em vida, três são em inglês.

Além de poeta, Pessoa trabalhou como tradutor, jornalista, crítico literário, editor, publicitário e até inventor. Ele também arranjava tempo para exercer o ativismo político.

Fernando Pessoa: seus pseudônimos, hábitos e curiosiodadesFernando Pessoa: seus pseudônimos, hábitos e curiosiodades

Fernando Pessoa tinha o hábito de escrever sob diversos pseudônimos, cada um com um estilo e uma biografia próprios. Ente os pseudônimos adotado estão Ricardo Reis, Alberto Caieiro e Álvaro de Campos.

As formas de escrita de Fernando Pessoa eram atingidas pelas mais pesadas emoções. Ele vivia em um mundo só dele, no próprio parque de diversões. Que pessoa hoje viveria dessa forma tão simples, materialmente, sem se importar com a hipocrisia lá fora? Fernando Pessoa. O que na verdade era colocado em sua escrita. Sua evolução espiritual de alguma forma se adequava ao que queria.

Suas diferentes personalidades eram tão distintas que geravam um pouco de desconfiança, quanto à sua investigação espiritual. Havia ali incorporado, manifestações ocultas, que queriam sair, por isso a enxurrada de textos que veio a criar os heterônimos Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caiero. Bernardo Soares era a consciência aberta de Fernando Pessoa.

Quer dizer que quando escreve visita a sua essência. Sua graça interior. De alguma forma ele escreve profundamente em cada heterônimo com certa facilidade, porque divide bem as personalidades. Assim, revela em seus escritos tudo o que quer explorar em si mesmo e no alheio oculto. Está em negrito as frases para refletir em seus heterônimos. Sempre, implicitamente, tem algo no meio dos seus textos, em que ele quer revelar, mesmo não saindo da rotina que ele segue na escrita. Algo mais espiritual, no que ele acredita de verdade, mas não conta explicitamente para não fazer alarde.

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Álvaro de Campos: Tabacaria

Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. Janelas do meu quarto, Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é (E se soubessem quem é, o que saberiam?), Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada. Álvaro de Campos: “Tabacaria” (excerto)

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Alberto Caeiro XXIX: Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo. Mudo, mas não mudo muito. A cor das flores não é a mesma ao sol De que quando uma nuvem passa Ou quando entra a noite E as flores são cor da sombra. Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores. Por isso quando pareço não concordar comigo, Reparem bem para mim: Se estava virado para a direita, Voltei-me agora para a esquerda, Mas sou sempre eu, assente sobre os meus pés — O mesmo sempre, graças ao céu e à terra E aos meus olhos e ouvidos atentos E à minha clara simplicidade de alma… s.d. “O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993). – 54.

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Ricardo Reis: Cada um cumpre o destino que lhe cumpre.

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre. E deseja o destino que deseja; Nem cumpre o que deseja, Nem deseja o que cumpre. Como as pedras na orla dos canteiros O Fado nos dispõe, e ali ficamos; Que a Sorte nos fez postos Onde houvemos de sê-lo. Não tenhamos melhor conhecimento Do que nos coube que de que nos coube. Cumpramos o que somos. Nada mais nos é dado. 29-7-1923 Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). – 171.

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Parece uma busca frenética por si mesmo, onde não há respostas que sacie a suas avalanches de perguntas interiores. E a escrita passa a ser um tipo de escape da realidade tão densa, em que o contexto de Portugal obriga Pessoa a passar.

Os heterônimos não seriam o seu desabafo quanto ao tédio de viver só Pessoa? No Livro do Desassossego ele descreve níveis de emoção como se Bernardo Soares fosse apenas uma fuga para suas dores internas quanto ao peso de haver o mundo e suas tristezas assíduas sem caridade alheia. Pessoa seria uma visão quimérica da própria consciência transformada em Bernardo? O autor português se transformaria em livro para não ter a responsabilidade de ser ele mesmo na condição que o livro apresenta? E mais uma vez estaria fugindo de ser ele mesmo, para ser a parte mutilada em seu semi-heterônimo Bernardo Soares.

Quando ele diz somos todos os EU que estive aqui ou estiveram parece se tratar de Campos, Soares e Pessoa. Álvaro de Campos parece ter frequentado os mesmos lugares que Bernardo Soares e o próprio Fernando Pessoa, e também combinavam ideias parecidas. Mas, como se precisasse que cada fosse do seu jeito. Ainda, ninguém melhor que Bernardo Soares em sua eterna melancolia sincera, para dizer: “tanto me exteriorizei dentro de mim, que dentro de mim não existo senão exteriormente”, o que confirma a ideia de Pessoa viver os fenômenos da heteronímia de maneira exterior.

São traços espontâneos quando se trata da escrita pessoana. Não há como definir, sendo até difícil conceituar, o que é ele na literatura, já que gerar conceitos através da vida real é menos possível. Pessoa teve uma relação com os universos dele mesmo, assim, só ele mesmo sabia a necessidade de expurgar o que sentia ao mundo.

A popularidade de Pessoa teve início após a sua morte. Pessoa morreu em 1 935, mas sua poesia só despertou o interesse do público a partir da década de 1 940. Seus poemas só foram traduzidos para outros idiomas depois de sua morte.

O poeta era muito amigo de outros dois grandes nomes da poesia portuguesa: Almada Negreiros e Mário de Sá-Carneiro. A intensa correspondência com Sá-Carneiro, só foi interrompida com o suicídio do amigo.

Coisa que Pessoa não conseguia ver era um lápis sem ponta. Antes de escrever, ele costumava apontá-los. Consta também que o grande poeta português também mantinha o hábito de escrever em pé.

Ao chegar algumas horas atrasado em um encontro com o escritor português José Régio, o poeta declarou ser Álvaro de Campos e pediu perdão por Fernando Pessoa não poder comparecer ao encontro.

Pessoa gostava bastante de astrologia. Ele tinha mania de fazer mapas astrais de amigos, parentes, conhecidos e até de personalidade históricas.

Dizem que Fernando Pessoa foi o responsável pela introdução do planeta Plutão (recentemente rebaixado para a categoria dos planetas-anões) nos mapas astrológicos.

Pessoa mantinha também um grande interesse pelo esoterismo, maçonaria e fraternidade Rosacruz. Admirava também o mago britânico Aleister Crowley.

O maior desejo da poetisa brasileira Cecília Meireles durante visita a Portugal era conhecer Fernando Pessoa. O poeta, porém, não compareceu ao encontro e deixou Cecília na espera por quase duas horas. Ao voltar ao hotel, ela topou com um livro e uma carta de pessoa. Nele, o gênio português pedia desculpas por não ter ido ao encontro. O motivo? Os astros diziam que os dois não podiam se encontrar naquele dia.

Fernando Pessoa morreu de cirrose hepática. Em seu atestado de óbito, no entanto, consta “obstrução intestinal” como causa da morte.

Em 2008, o Bureau Internacional das Capitais da Cultura revelou ser Fernando Pessoa uma das 50 personalidades mais influentes da cultura europeia, ao lado de Da Vinci, Mozart e Einstein.

Existe na cidade do Porto uma universidade chamada Fernando Pessoa, em homenagem a esse grande poeta da língua portuguesa.