Audiências consolidadas desta quinta-feira (17/08).

A União Americana pelas Liberdades Civis (Aclu, na sigla em inglês), uma das mais influentes organizações em defesa dos direitos humanos nos EUA se tornou alvo de duras críticas —inclusive internas— desde que defendeu que grupos racistas pudessem se manifestar no último fim de semana em Charlottesville, na Virgínia.

A defesa foi feita, inclusive, no tribunal, com advogados da Aclu tendo conseguido a autorização para que a marcha que terminou com uma morte no sábado (12) ocorresse.

A organização, que condenou a violência, manteve sua posição mesmo após o resultado trágico. O argumento? A defesa da primeira emenda da Constituição americana, que garante o direito à liberdade de expressão.

A discussão sobre proibir ou não as próximas marchas de grupos de extrema direita se acirrou mais nos EUA após Charlottesville, e uma manifestação pela “liberdade de expressão” em Boston, neste sábado (19), só foi autorizada pelas autoridades locais sob fortes restrições (nenhum manifestante poderá portar arma, bastão, pedaços de pau ou mochilas).

Audiências consolidadas desta quinta-feira (17/08).Audiências consolidadas desta quinta-feira (17/08).

Uma outra marcha intitulada “vidas brancas importam”, marcada para 11 de setembro em College Station, no Texas, e que teria a presença de Richard Spencer, um dos principais nomes do chamado “alt-right” —movimento com o qual se identificam nacionalistas brancos, grupos homofóbicos e anti-imigrantes—, foi cancelada nesta semana pela Texas A&M University.

A universidade alegou “preocupação com a segurança de estudantes, professores, funcionários e do público”.

Após a forte pressão, o diretor-executivo da Aclu, Anthony Romero, disse, em entrevista ao “The Wall Street Journal” na quinta (17) que a organização não defenderá mais o direito à manifestação de grupos de ódio que queiram marchar com armas de fogo.

“Os eventos de Charlottesville exigem que qualquer juiz, chefe de polícia ou organização legal vejam os protestos de supremacistas brancos com mais rigor”, disse Romero.

A Aclu, contudo, seguirá defendendo que os grupos racistas possam falar. “Fundamentalmente, acreditamos que a nossa democracia será melhor e mais forte se se envolver e ouvir opiniões divergentes. O racismo e o fanatismo não serão erradicados se os jogarmos para debaixo da terra. A igualdade e a justiça só serão alcançadas se a sociedade olhar a intolerância nos olhos e renunciá-la”, defendeu Romero em comunicado, na última terça.

Segundo ele, nem todo o discurso é “moralmente equivalente”, mas a contestação do valor do discurso de ódio “só pode acontecer se a troca de ideias estiver aberta”.

Em 1977, a Aclu teve sua primeira grande polêmica ao defender o direito de manifestação de neonazistas em Skokie, subúrbio de Chicago onde grande parte da população era judaica e algumas centenas, sobreviventes de campos de concentração. Apesar de a Suprema Corte ter permitido a marcha, seus organizadores acabaram transferindo-a para o centro de Chicago.

Na época, muitos membros da Aclu deixaram a organização, que se defende ao dizer que nunca deixou seu compromisso com a primeira emenda.

A professora de direito da Universidade de Miami Caroline Mala Corbin defende a posição da Aclu e ressalta que a Constituição prevê limites para a expressão, como a proibição, por exemplo, que uma pessoa difame outras ou incite a violência. “A melhor justificativa para a proteção da liberdade de expressão é que não confiamos que um governo possa decidir quem deve ter permissão para falar ou não”, diz Corbin.

Robert O’Neil, professor de História da Universidade da Virginia, em Charlottesville, onde os grupos racistas e neonazistas marcharam há uma semana, diz que, por ser afiliado à Aclu, normalmente defenderia a sua decisão sobre a marcha da extrema direita. “Mas minha impressão é que as coisas se deterioraram tanto em Charlottesville, que a Aclu deveria reconsiderar sua posição”, disse.

Waldo Jaquith, um dos integrantes da diretoria da Aclu em Virgínia, saiu da organização dizendo que não “acobertaria” nazistas. “Não defenda nazistas para permitir que eles matem pessoas”, escreveu Jaquith em sua rede social.

Muitos defendem que os EUA deveriam seguir o exemplo alemão, que logo após a Segunda Guerra, proibiu o uso ou exposição de qualquer símbolo, como a suástica vista em cartazes na marcha de Charlottesville, ou linguagem nazistas.
Isso, contudo, não evita que os neonazistas se manifestem na Alemanha, como em uma marcha marcada para este sábado (19), em Berlim.

A polícia autorizou uma manifestação que deve reunir até 1.000 neonazistas da Alemanha, Hungria e República Tcheca para celebrar a morte do vice de Adolf Hitler, Rudolf Hess. As autoridades, no entanto, estipularam que os participantes não poderão mencionar o nome ou levar imagens de Hess.