A novela e sua contribuição para a mudança cultural no Brasil

Mesmo que venham perdendo a cada ano mais expectadores no Brasil, as telenovelas ainda estão fortemente consolidadas como principal produto fonte de entretenimento diário da população do país. Não é novidade para ninguém que as novelas ditam moda em praticamente tudo na nossa sociedade: desde o nome dado às crianças, até a roupas e bordões repetidos exaustivamente pelos telespectadores.

Mas será que bordões e vestimentas são o limite para a influência das telenovelas no Brasil? Pesquisas divulgadas em 2009 feita pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento, mostram que não.

Os estudos Novelas e Fertilidade: Evidências do Brasil e Televisão e Divórcio Evidências de Novelas Brasileiras mostraram que as telenovelas tiveram um papel fundamental em questões delicadas como influência na queda da taxa de fertilidade e no aumento da de divórcios no país.

Ambos os estudos focaram nas novelas da Rede Globo. Não que a Globo e as novelas sejam os únicos meios de se mudar uma sociedade através da arte. Porém, como sabemos, a emissora detinha (e ainda detém em grande parte) o monopólio de audiência na televisão brasileira. Na década de 80, por exemplo, a novela Roque Santeiro chegou a atingir 100 pontos de audiência em determinado momento de sua exibição.

A novela e sua contribuição para a mudança cultural no BrasilA novela e sua contribuição para a mudança cultural no Brasil

Realizados a partir da década de 70, os estudos concluíram que “a probabilidade de uma mulher ter um filho em áreas cobertas pelo sinal da Globo caiu 0,6 ponto percentual a mais do que em áreas sem cobertura”. Detalhe que, nos anos anteriores à chegada do sinal, a taxa de fertilidade não tinha sido modificada.

E enquanto a taxa de fertilidade diminuía, a taxa de divórcios aumentava. Menos significativo que a taxa de fertilidade, porém estatisticamente significativo, as áreas que contavam com o sinal da Globo apresentaram um aumento de 0,1 a 0,2 ponto percentual em relação às que o sinal do canal ainda não estava presente.

A análise do conteúdo de 115 novelas (das 19h e 20h) que passaram durante o período da pesquisa foram essenciais para o entendimento dos números. De acordo com o estudo, “sessenta e dois por cento das principais personagens femininas não tinham filhos e 21% tinham apenas um filho”, enquanto “vinte e seis por cento das protagonistas femininas eram infiéis a seus parceiros”.

Qual a fórmula?

Mas como um simples produto cuja finalidade é entreter consegue mudar a maneira de pensar e agir de determinada sociedade? Muito simples: apresente algo agora considerado “errado”, mas de uma maneira romantizada, de uma forma que possa passar a ser assimilado pelo expectador ao longo do tempo como algo “normal”.

Os dados que acompanharam a pesquisa acima mostraram bem como tudo funciona. Geralmente, ao se acompanhar as telenovelas, o que se vê geralmente como enredo para a história de uma mocinha tradicional? Casada ou noiva, geralmente infeliz, ela encontra o verdadeiro amor de sua vida e luta em busca da aceitação da sociedade para conseguir viver a sua grande paixão. Um estímulo a traição e divórcio, romantizados.

Recentemente, as novelas vêm evoluindo nessa questão. A questão da infidelidade conjugal e traição já é mais do que normal. A onda agora é promover formas diferentes daquilo que tradicionalmente é aceito como família, como o relacionamento homossexual, incesto ou “poliamor”.

Com isso não busco dizer que autores de telenovelas são seres maquiavélicos, cujo único propósito de seus trabalhos seja promover a promiscuidade ou o adultério. O que acontece é que, muito dificilmente uma telenovela terá sucesso sem tais ingredientes. O problema é quando você passa a romantiza-los, a passa-los ao público como algo aceitável, normal.

A atual temporada de “Malhação”, por exemplo, vem promovendo um relacionamento poligâmico. E a própria intérprete da personagem Krika confirma em entrevista aquilo que tenho dito desde o início desta postagem: as novelas e a mídia no geral ajudam, sim, a mudar a forma de pensar de uma sociedade.

“Comecei a estudar esse assunto por causa da novela, e minha opinião mudou. Antes eu achava inaceitável, agora acho lindo, é uma forma de praticar o amor sem apego”, fala a atriz. Nem preciso mais falar nada, não é mesmo?

Hoje, na segunda década do século XXI, as novelas não têm mais a audiência que tinham há alguns anos. Mesmo assim, não resta dúvidas de que elas conseguiram ajudar de maneira significativa a mudar a forma de pensar e agir do povo brasileiro, quer você considere tal mudança positiva, ou negativa.

O estilo musical que mais cresce hoje em dia – o funk –, a exemplo do que foi o axé que dominou a TV e o rádio nas décadas passadas, está se encarregando de dar continuidade a este trabalho.

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