A perseguição a Cocielo revela um Brasil de linchadores

Estamos intoxicados de amor à virtude. A exigência de uma perfeição plena, irrestrita, nos consome e nos deixa ansiosos. Exige-se de cada gesto ou palavra, mesmo na esfera privada, a mesma retidão meticulosamente calculada dos discursos de um político em tempo de campanha. A hipocrisia, portanto, reina absoluta.

O único respiro nesse jogo de insegurança e autocensura paralisante é o ataque: acusar as incongruências e os pecados de outro, ato que nos confirma aos olhos dos outros e de nós mesmos, ao menos momentaneamente, nossa virtude sincera. Tudo deve ser vasculhado em busca dos podres que revelam a malignidade da alma em julgamento.

É o que vimos no caso dos torcedores brasileiros, e é o que estamos vendo no caso da piada racista do youtuber Julio Cocielo. (Talvez você nunca tenha ouvido falar nele; eu mesmo tinha uma vaga ideia. É a fragmentação das referências no mundo contemporâneo: estrelas com dezenas de milhões de seguidores são absolutos desconhecidos para outra parte da população.) Por um tuíte ofensivo, em que ele associa o ser negro a participar de arrastões, ele virou o novo inimigo público número um, perdendo inclusive todos os patrocinadores que antes o apoiavam.

Neste caso, penso que a reação de patrocinadores de cortar relações com ele é justificada, razoável. Não se tratou de um comentário privado vazado contra sua vontade, mas de uma manifestação pública, parte de sua atividade profissional, que demonstrou imaturidade e falta de noção. Além disso, embora o humor possa (e muitas vezes deva?) ser feito sem limites, é natural que o humor que uma grande empresa estará disposta a patrocinar terá sim limites bastante claros, e no geral deverá se pautar por valores positivos para a sociedade.

Mas Cocielo não apenas perdeu alguns contratos de patrocínio e seguidores. Ele virou alvo de perseguição, inclusive de jornalistas e de formadores de opinião, que cobram o fim absoluto de sua carreira, e ousam acusar de racista não só a ele mas todos os que o seguem.

Fazer uma piada racista não significa que a pessoa seja racista. Assim como fazer uma piada de português não significa que a pessoa odeie portugueses ou mesmo considere que eles sejam menos inteligentes que os brasileiros. Os estereótipos do humor (o negro, o português, a loira, o argentino) não necessariamente representam crenças literais de quem os utiliza. Tampouco há qualquer evidência de que uma piada racista gere aumento de violência contra negros, discriminação ou alguma outra prática racista.

Mais interessante: no afã persecutório a Cocielo, poucos repararam que ele próprio não é exatamente branco, ao contrário do fenótipo verdadeiramente europeu de muitos de seus perseguidores. A piada racista dele é muito mais um reflexo da complexidade racial brasileira e do racismo que perpassa toda a cultura do que a prova de que temos um novo Hitler entre nós que precisa ser extirpado.

Cocielo já pediu desculpas por escrito e em vídeo. Diz-se arrependido, diz que seus atos foram injustificáveis (ele matou alguém? Ou fez algo ainda pior?) e que aprendeu muito, que é um novo homem e que de agora em diante será diferente. Será que mudará de verdade? E se mudar, conseguirá manter o apelo que tinha para tantas pessoas? Ou será que o resultado de ter sido subjugado pela perseguição ideológica de nossos tempos é a pasteurização, a castração da própria potência criativa? O tempo dirá.

Claro que a santa inquisição das redes sociais não se deu por satisfeita. Tendo conseguido a abjuração de mais um herege, já partiu em busca do próximo. A classe dos youtubers é um campo aberto. Cauê Moura já foi devidamente castigado por tuítes de anos atrás e perdeu o patrocínio para seu canal Ilha de Barbados. Whindersson Nunes, um dos maiores youtubers do Brasil, parece ser o próximo alvo. Qualquer fala ou post que contenha algo considerado preconceituoso, mesmo que feito dez anos atrás, é passível de abrir um novo processo inquisitorial.

Não é pela demonização de indivíduos que se resolvem problemas sociais e culturais mais amplos, nos quais muitos dos linchadores podem estar implicados. Assim como a perseguição a adúlteros e fornicadores em tempos passados não instaurou o reinado da castidade, mas sim da hipocrisia generalizada. Estamos criando um Brasil sem racismo e sem machismo ou um Brasil no qual o discurso é censurado? E se esse for o caso, cabe lembrar que aquelas tendências que reprimimos têm o péssimo hábito de reaparecer de outras formas, em geral mais monstruosas. Outubro está aí…


Publicado originalmente em Exame.

Douglas Nascimento

Twitter: dnascimentow