Os sentimentos humanos…

 
 
 

 

“Às vezes, é inútil esforçar-se demais, nada se consegue.

Os sentimentos são sempre uma surpresa”.

Clarice Lispector

 

 

Os Sentimentos Humanos certo dia se reuniram para brincar. Depois que o Tédio bocejou três vezes porque a Indecisão não chegava a conclusão nenhuma e a Desconfiança estava tomando conta, a Loucura propôs que brincassem de esconde-esconde. A Curiosidade quis saber todos os detalhes do jogo, e a Intriga começou a cochichar com os outros que certamente alguém ali iria trapacear.

O Entusiasmo saltou de contentamento e convenceu a Dúvida e Apatia, ainda sentadas num canto, a entrarem no jogo. A Verdade achou que isso de esconder não estava com nada, a Arrogância fez cara de desdém pois a ideia não tinha sido dela, e o Medo preferiu não se arriscar: “Ah, gente, vamos deixar tudo como esta”, e como sempre perder a oportunidade de ser feliz.

A primeira a se esconder foi a Preguiça, deixando-se cair no chão atrás de uma pedra, ali mesmo onde estava. O Otimismo escondeu-se no arco-íris, e a Inveja se ocultou junto a Hipocrisia, que sorrindo fingidamente atrás de uma árvore estava odiando tudo aquilo.

A Generosidade quase não conseguia se esconder porque era grande, e ainda queria abrigar meio mundo, a Culpa ficou paralisada pois já estava mais do que escondida em si mesma, a Sensualidade se estendeu ao sol num lugar bonito e secreto para saborear o que a vida lhe oferecia, porque não era nem boba nem frígida; o Egoísmo achou um lugar perfeito onde não cabia ninguém mais.

A Mentira disse para Inocência que ia se esconder no fundo do oceano, onde a inocente acabou afogada, a Paixão meteu-se na cratera de um vulcão ativo, e o Esquecimento já nem sabia o que estava fazendo ali.

Depois de contar 99 a Loucura começou a procurar. Achou um, achou outro, mas ao remexer num arbusto espesso ouviu um gemido: era o Amor com os olhos furados pelos espinhos. A Loucura o tomou pelo braço e seguiu com ele, espalhando beleza pelo mundo. Desde então o Amor é cego e a Loucura o acompanha. Juntos fazem a vida valer a pena…

Texto publicado no livro “Pensar é transgredir” de Lya Luft.

Conceito de sentimentos

Um sentimento é um estado afetivo que se produz por causas que o impressionam. Estas causas podem ser alegres e felizes, ou dolorosas e tristes. O sentimento surge como resultado de uma emoção que permite que o sujeito esteja consciente do seu estado anímico, estão vinculados à dinâmica cerebral e determinam de que forma uma pessoa reage perante distintos acontecimentos. Trata-se de impulsos da sensibilidade relativamente ao que se imagina como sendo positivo ou negativo.

Por outras palavras, os sentimentos são emoções conceitualizadas que determinam o estado afetivo. Sempre que os sentimentos são saudáveis, o estado anímico alcança a felicidade e a dinâmica cerebral flui com normalidade. Caso contrário, o estado anímico não está em equilíbrio e podem surgir perturbações como a depressão.

As alterações nas cargas emocionais determinam as características dos sentimentos. As emoções podem ser breves no tempo, embora possam gerar sentimentos que se mantêm durante períodos bastante extensos.

Os sentimentos podem ser positivos quando promovem boas ações, ou prejudiciais se fomentarem más ações. Neste último caso, é importante que o homem consiga dominar os seus sentimentos e modifica-los. A pessoa nunca se deve guiar unicamente pelos seus sentimentos, uma vez que estes são instintivos e, como tal, podem representar uma perda de liberdade para o ser humano ou promover atos irracionais, tal como mencionado no exemplo anterior.

Sobre Lya Luft

 

Lya Luft nasceu em 15/09/1938 no Rio Grande do Sul em uma cidade de civilização alemã (Santa Cruz do Sul), por esta razão, desde cedo, começou a ter contato com escritores estrangeiros como Goethe – autor da obra Fausto. Formou-se em Pedagogia e em Letras. É uma escritora renomada, tradutora, colunista e professora universitária. Já traduziu inúmeros livros de grandes autores como: Virginia Wolf (escritora inglesa), Hermann Hesse (escritor alemão) e Doris Lessing (escritora inglesa).

Seus primeiros poemas foram escritos quando estava casada com Celso Luft (filólogo, gramático, linguista, dicionarista e professor). Tais poemas foram reunidos no livro Canções de Limiar, em 1964.

Lya Luft é uma escritora de personalidade forte e opiniões marcantes a respeito de vários assuntos como sexo e vida pessoal. Foi casada com Celso Luft (19 anos mais velho que ela), se divorciou e se casou com o psicanalista e escritor Hélio Pellegrino. Cinco anos após a morte de Hélio voltou a se casar com Celso, que morreu 3 anos depois.

Hoje, Lya está concentrada em suas obras e não quer fazer parte de nenhum grupo literário, escreve porque gosta e porque a faz feliz. Seus livros são um sucesso e traduzidos para o inglês, italiano e alemão.

Quem é Lya Luft?

“Uma mulher gaúcha, brasileira, que faz cada vez mais, aos sessenta e um anos, o que desde os três ou quatro desejava fazer: jogar com as palavras e com personagens, criar, inventar, cismar, tramar, sondar o insondável. Tento entender a vida, o mundo e o mistério e para isso escrevo. Não conseguirei jamais entender, mas tentar me dá uma enorme alegria. Além disso, sou uma mulher simples, em busca cada vez mais de mais simplicidade. Amo a vida, os amigos, os filhos, a arte, minha casa, o amanhecer. Sou uma amadora da vida”

O que você nunca vai esquecer?

“Escutar o vento e a chuva nas árvores do imenso jardim que cercava a casa de meu pai, na minha infância”.

O que lhe causa repugnância?

“Preconceito, hipocrisia”.

Vale a pena escrever?

“Não escrevo porque “valha a pena”, mas porque me faz feliz, simplesmente”.

O que falta à literatura brasileira?

“Nada, não falta nada. Ela é o que é, simplesmente, cheia de graça, desgraça, florescente, múltipla, lutando com a crise econômica que atinge também as editoras, mas, como não se escreve para ficar rico, tudo bem”.

E Deus?

“Deus eu imagino como força de vida: luminosa, positiva, imperscrutável”.

E o Brasil?

“Brasil cujo jeito é parecer não ter jeito. Não quero jamais ter de morar longe dele. Aqui tudo é possível. E tanto está ainda por fazer”.

O que fazer para reverter esse quadro de miséria?

“Que os responsáveis por isso criem vergonha na cara”.

Quem não merece respeito algum de ninguém?

“Todos merecem algum respeito, no mínimo compaixão”.

Você costuma rezar?

“Não tenho nenhuma religião instituída, mas tenho uma profunda visão “religiosa”, sagrada, da natureza, das pessoas, do outro”.

Qual é seu momento ideal para escrever?

“O momento em que meu livro quer ser escrito. Mas normalmente produzo mais de manhã bem cedo. Gosto de ver o dia nascer, aqui na minha mesa de trabalho e do meu computador”.

Algumas Obras:

– Flauta Doce
– As Parceiras
– Reunião de Família
– O Quarto Fechado
– Exílio
– O Lado Fatal
– O Rio do Meio
– Secreta Mirada

 

“A vida é maravilhosa, mesmo quando dolorida. Eu gostaria que na correria da época atual a gente pudesse se permitir, criar, uma pequena ilha de contemplação, de auto-contemplação, de onde se pudesse ver melhor todas as coisas: com mais generosidade, mais otimismo, mais respeito, mais silêncio, mais prazer. Mais senso da própria dignidade, não importando idade, dinheiro, cor, posição, crença.

Não importando nada”.