Está cheio de moralista ao meu redor | Crítica

Pessoas integralmente virtuosas e éticas em diferentes situações e em todas as circunstâncias é o que se espera de todos – ou quase todos – dos que convivem em nosso meio. Adiante disso, principalmente dos membros que fazem parte do mesmo grupo social ao qual pertencemos. Seria ingenuidade, contudo, acreditar na plena bondade das pessoas como se elas não tivessem segundas intenções, por mínimas e mais inofensivas que sejam, e tratá-las como se não defendessem o que consideram importante para si mesmas.

Em um mundo onde muito se quer falar e pouco se ouvir, a boa notícia é que temos as redes sociais para nos dar voz e abrir debates e discussões. O fator complicador é justamente esse, temos esse espaço que, ora serve para debate, ora serve para digladiações.

Apelaremos para a divisão política evidente. A direita defende proeminentemente suas ideias conservadoras e uma economia de mercado livre com pouca interferência do Estado, o que acaba conflitando no contraposto de poder ser usada para o interesse dos mais ricos, deixando os mais pobres em desvantagens sociais. Do outro lado, a ala esquerda defende verazmente a liberdade, porém, tem como base fundamentalista o controle por parte do Estado sobre todos os indivíduos, deixando a religião, patriotismo e cultura em segundo plano, questões sociais básicas que equiparam o homem de seus valores, sendo substituído pelo valor comum proposto pelo Estado. Percebam: para cada ideia, um tropeço.

Sendo prático, podemos exemplificar com a estrondosa polêmica do Museu de Arte Moderna [MAM], em São Paulo, em que uma criança foi exposta a um homem totalmente sem roupas. Ora, para os que defendem a liberdade artística a qualquer custo, por que não deixaram claro qual foi a real intenção da mostra, uma vez que a arte é reflexo da vida e da cultura da humanidade sendo que tal situação (repito) na vida e na cultura fora do âmbito artístico isso seria uma atrocidade ainda maior? É normal por aí uma criança tocar em um homem desprovido de suas vestes? Não, não é normal. Para os que ficaram horrorizados, assim como eu, com a superexposição da criança, seria mais fácil julgar o juízo de valor da mãe da menina que a levou no local do que, por exemplo, ler um livro educativo ou literário para um filho, um irmão mais novo, um sobrinho? Ou julgar o que acontece longe é mais fácil, mais cômodo?

Jamais podemos nos reprimir de expôr uma opinião ao qual estamos convictos, não precisando justificar o porquê pensamos assim, pois são unicamente alicerçados por nossos valores. Todo bom debate é válido. Toda boa discussão enriquece. Porém, nos enchermos de razão para refutar toda e qualquer atitude alheia é desprezível, talvez medíocre. No popular “o dono da razão”, e não estamos nos limitando às discussões políticas de direta e esquerda, quão menos apenas nesse caso do MAM.

Lotar o mundo de próprias morais não vai salvar ninguém do caos. Longe disso.

  • Sempre penso que todo extremo é ruim, pode até pender para um lado, mas precisa-se manter um mínimo de equilíbrio.

  • Douglas

    Ótimo texto, Danilo. Mas desvantagens sociais sempre existirão, e vejo como algo natural.

  • Davi Allen

    Pois é, essa guerra de egos acaba separando a população e é justamente o que eles querem. O povo desunido é mais fraco. Parabéns pelo texto, Danilo!