A lenda de Kaguya-Hime, a Princesa da Lua

A cultura nipônica é muito rica, abriga um complexo de artes, técnicas artesanais, tradições, crenças, costumes, que encanta e instiga. Particularmente o que mais admiro na cultura nipônica, é a educação pessoal, valorização dos antepassados, a importância da honra em sua vida, seus contos e lendas.

 

O Brasil abriga a maior população japonesa fora do Japão, os nikkeis (japoneses e descendentes), que favorecem nossa economia e enriquece nossa cultura. As primeiras famílias japonesas chegaram ao Brasil no dia 18 de junho de 1908,  no porto de Santos através do navio Kasato Maru que saiu do do porto de Kobe. A viagem durou mais de 50 dias, e trouxe os primeiros 781 imigrantes vinculados ao acordo imigratório estabelecido entre Brasil e Japão. A data marca o Dia da Imigração Japonesa no País e é comemorada todos os anos desde então.

 

Gostaria de agradecer  ao  site Caçadores de Lenda por autorizar postar este artigo e mais alguns outros pré-agendados,  aqui no Recreio. O texto abaixo foi postado por Isa. O Caçadores de lenda é um site rico em conteúdo e um dos focos é a divulgação da cultura nipônica, vale a pena conhecer.

 

 

A lenda da Princesa Kaguya, também conhecida como o “Conto do Cortador de Bambu, cujo título original é “Taketori monogatari” é considerada a mais antiga narrativa japonesa existente. Originalmente transmitida pela oralidade, como obra escrita data do Século X, e narra a história de um velho cortador de bambus que, certo dia, encontra uma pequenina menina dentro de um broto, sem saber que era na verdade, uma princesa da Lua. A narrativa se desenvolve baseada na troca de “tankas”, cartas de juras e poemas, entre Kaguya e seus pretendentes. Taketori Monogatari é uma obra milenar, com uma preciosa história rica em simbologias e referências mitológicas. Ao longo dos séculos, sofreu diferentes versões e adaptações, pela sua relevância literária, esse conto foi selecionado entre os mais importantes para ler antes de morrer.

 

Kaguya-Hime: A Lenda

Há muito, muito tempo atrás, numa longínqua aldeia viveu um pobre homem conhecido como “O Velho Cortador de Bambu”. Todos os dias, andava entre os campos e as montanhas para colher bambus que, depois, transformava em lindos cestos e nos mais variados artigos. Seu nome era Sanuki no Miyatsuko.

 

O ancião e sua velha esposa viviam juntos numa pequena casa próxima a floresta. Eles eram muito pobres e solitários, pois não tinham filhos para criar.

 

Um belo dia, enquanto estava na floresta, o velho Sanuki percebeu entre os bambus um talo cuja base brilhava intensamente. Achando aquilo muito estranho, aproximou-se para examinar melhor quando viu uma luz intensa que saia do talo oco. Ele ficou espantado, pois, em anos e anos de trabalho, nunca havia visto algo como aquilo. Muito curioso, ele cortou o bambu e mal pôde acreditar no que viu. Dentro do talo, havia uma garotinha encantadora, com cerca de dez centímetros de altura.

kagayuhime-folk tale

“Uma menina, uma menina! Tão pequena e tão linda, só pode ser um presente dos Deuses!” -Disse o velho homem  – “Eu a descobri porque você estava aqui, entre os bambus que vejo todos os dias. Isso deve significar que você está destinada a ser minha filha.”

 

Então, pegou a frágil garotinha na palma de suas calejadas mãos e a levou para casa, entregando-a aos cuidados da sua esposa para que a criasse. Ao ver a menina, a velha senhora também ficou muito contente e encantada com a criança que possuía uma beleza incomparável, e era tão pequena que eles a colocaram num cesto para protegê-la.

 

Depois desse dia, por várias vezes, quando o velho cortador recolhia os bambus, encontrava alguns talos recheados de moedas de ouro que ele juntou e juntou e, dessa forma, tornou-se um homem rico e importante na região. Pouco a pouco, Sanuki abandonou sua rotina de andar pelos campos para cortar bambus, porém, permaneceu sendo tratado e conhecido pelo antigo ofício: o Cortador de Bambus.

 

Kaguya Hime crescia muito rápido e a cada dia parecia mais bonita. Menos de três meses depois da sua chegada, a pequenina já era alta como uma adolescente. Até então, durante dias e noites, os pais, preocupados com a sua segurança, sequer tinham permitido que a filha saísse de seu quarto protegido por pesadas cortinas.

Ninguém poderia acreditar que uma pessoa tão bonita pertencesse a este mundo. A menina tinha uma pureza de traços sem igual no mundo inteiro, e sua presença iluminava a casa com uma luz intensa que não deixava nem um canto na penumbra. Além disso, todas as vezes que o velho homem se sentia desanimado, com alguma dor ou até mesmo com raiva, bastava olhar para a criança e tudo passava. Diante dela, tudo ficava perfeito.

 

Ao alcançar o tamanho de adulta, Mimuroto Amube Akita, antigo sábio da região, foi convidado a dar a jovem um nome de mulher. Akita a chamou de Nayotake no Kaguya-hime, a “Princesa Resplandecente do Bambu Flexível”.

 

Os pais, que cuidavam dela amorosamente, decidiram celebrar o acontecimento com sua entrada na vida adulta. Para a comemoração, a jovem foi cuidadosamente preparada. Seus cabelos foram penteados para cima e a vestiram com trajes longos ricamente ornados, de modo que a sua beleza foi ainda mais realçada.

 

A princesa Kaguya-hime estava deslumbrante. Sua festa, engrandecida por atrações de todos os tipos, durou três dias inteiros. Homens e mulheres foram convidados e se divertiram largamente.

 

Logo os comentários sobre a beleza da Kaguya Hime se espalharam e vinham jovens de todos os cantos do país para conhecê-la. Todos, encantados com a bela jovem queriam se casar com ela, mas Kaguya não queria desposar ninguém. “Quero ficar ao lado de vocês dois”, dizia a jovem para seus amados pais.

Mas cinco jovens nobres, de posições importantes, foram mais persistentes. Eles acamparam em frente à casa de Kaguya Hime e pediam insistentemente uma chance a princesa.

 

Preocupado, o velho chamou Kaguya e disse: “Minha filha, eu gostaria muito de tê-la sempre por perto, mas acho justo que se case. Eu e sua mãe estamos velhos, não sei o dia de hoje nem o de amanha. Sei que é um ser incomum, mas quanto a gente deste mundo, os homens se unem às mulheres e as mulheres aos homens. Após isso, a família floresce. Escolha um dentre os cinco jovens que estão acampados aqui”.

 

“Mesmo sendo nobres na terra, sem conhecer a verdade de seus corações, fica muito difícil fazer uma escolha.” Disse Kaguya. Assim, depois de refletir, a linda jovem decidiu. “Irei me submeter, àquele, dentre os cinco, que me trouxer aquilo que desejo ver, o que provará a superioridade de sua afeição”:

 

Uma joia rara de cinco cores presa ao pescoço de um dragão, uma relíquia feita com pedras dos deuses, conhecida como a “Sagrada Tigela de Buda” que nunca se quebra e brilha como a luz do sol, um manto forrado com a pele do “Rato-de-Fogo” que nunca se queima, um ramo de uma árvore no Monte Horai cujo tronco é de ouro, suas raízes de prata e de seus frutos crescem  pedras preciosas, e uma concha koyasugai que a andorinha carrega no ventre e põe junto com seus ovos. Estes foram alguns dos objetos mágicos que Kaguya Hime exigiu aos jovens.

 

O pai levou os pedidos de Kaguya aos pretendentes acampados. Ele sabia que seria improvável conseguirem obter tais objetos. Qual não foi sua surpresa quando, ao final de algum tempo, muitos dos pretendentes trouxeram os presentes a Kaguya. Mas, quando foram obrigados a entregá-los à jovem, todos admitiram que os presentes eram falsos, pois conseguir os verdadeiros era uma missão impossível. E assim, nenhum pretendente obteve êxito.

 

Com a falha de todos os príncipes, Kaguya Hime, o velho Taketori e sua esposa viveram tranquilos e felizes por uns tempos, como uma família unida. Mas as histórias sobre os feitos e falhas dos nobres percorreram todo o Japão e chegaram ao ouvidos do imperador.

 

Kaguya__watercolor__by_jurithedreamerEste ficou então curioso e fascinado pelos relatos sobre a beleza sem igual da princesa, que se interessou em conhecê-la, enviando sua servidora imperial para certificar-se sobre a jovem. Porém, Kaguya se recusou a receber a enviada da corte. Ao ser informado do ocorrido, o soberano convocou o Cortador de Bambus para que comparecesse a sede imperial e exigiu deste, que lhe enviasse Kaguya Hime.

 

Temendo o imperador, o velho pai aconselhou à filha que obedecesse, mas ela surpreendeu a todos mais uma vez declarando que não obedeceria a ordem e que nem poderia, pois caso se afastasse de casa, morreria.

 

Dessa vez o Imperador não se enfureceu devido a justificativa, mas ficou ainda mais interessado. Resolveu então realizar uma caçada nas montanhas próxima a casa da menina com a intenção de encontrá-la. Ao se aproximar, avistou uma figura radiante que iluminava tudo ao seu redor, distraída, ela não apercebeu-se de sua presença. Extasiado com tamanha beleza, o nobre aproximou-se mais, e mais, ao notá-lo a princesa tentou fugir, quando o imperador a segurou pela manga do kimono. Nesse momento, Kaguya Hime desapareceu, deixando apenas uma sombra no ar.

 

O soberano enfim compreendeu que, de fato, não se tratava de uma pessoa comum. e lamentando profundamente, se conformou em apenas contemplá-la. Ordenou então que voltasse a sua forma humana que ele partiria. E partiu, sentindo que deixava sua alma para trás.  Com o tempo, passaram a trocar correspondências frequentemente afeiçoando-se, enviavam um ao outro poemas e contos (tanka) que eram acompanhados de ramos e flores de cada estação. E assim, a família do velho cortador de bambus permaneceu em paz por alguns anos a mais.

Quatro primaveras haviam se passado desde que Kaguya fora encontrada no broto de bambu. Porém, ela ficava mais triste a cada dia. Noite após noite, Kaguya Hime olhava para a lua, suspirando. Preocupado, o pai um dia perguntou: “Por que está tão triste minha filha?”. “Eu gostaria de ficar aqui para sempre, mas logo devo retornar.” Disse a jovem. “Retornar, mas para onde? O seu lugar é aqui conosco, nunca deixaremos você partir.” Disse o pai aflito. “Oh meu amado pai! Este não é o meu verdadeiro lar, sou uma princesa do “Reino da Lua” e, na próxima Lua Cheia, meu povo virá me buscar”. Completou tristemente a princesa.

 

Muito assustados com a reveladora confissão de Kaguya Hime,  decidiram pedir ajuda ao Imperador. O Imperador, em ajuda, prontamente enviou muitos guardas para vigiarem a residência do casal. Um verdadeiro exército foi formado à sua porta. Mil se posicionaram sobre o muro, outros mil sobre o telhado e, juntos com os muitos servos da propriedade, formaram uma barreira impenetrável.

 

No dia seguinte, a temida noite de Lua Cheia chegou. A casa estava tão vigiada que parecia impossível alguém conseguir levar Kaguya Hime. De repente, uma enorme luz surgiu no céu, como se milhares de luas estivessem presentes ao mesmo tempo.

A luz era tão intensa que ninguém conseguiu enxergar a carruagem que descia, guiada por um grande cavalo alado e muitos seres ricamente trajados. Depois de algum tempo, quando a luz finalmente diminuiu, a carruagem já estava voando, em direção à Lua. Kaguya-hime não estava mais presente, ela fora levada com a comitiva celestial. O cortejo celeste carregou a Princesa  de volta à Tsuki-no-Miyako (Capital da Lua), deixando seus pais adotivos da terra em lágrimas.

 

Os velhos pais  ficaram muito tristes, inconformados voltaram aos aposentos de Kaguya e encontraram um potinho, último presente da filha querida. Ela havia deixado um pó mágico, uma pequena amostra do elixir da vida que garantiria a vida eterna para os dois.

 

Mas, sem sua filha amada, não tinham motivo para viver para sempre. Recolheram então todos os pertences de Kaguya e levaram para o monte mais alto do Japão. Lá, queimaram tudo, junto com o pó mágico deixado pela jovem. Uma fumaça branca foi vista subindo ao céu naquele dia.

 

A alta  montanha era o Monte Fuji. A lenda diz que a palavra imortalidade (不死 fushi ou fuji) tornou-se o nome da montanha desde então, “Monte Fuji”. Dizem, que ainda hoje, é possível ver a fumaça branca subindo em direção ao céu.

Fonte: Postado por Isa, no site Caçadores de Lenda tendo como referências:  http://pt.wikipedia.org/wiki/Conto_do_Cortador_de_Bambu / Livro:Myths and Legends of ancient Japan

 

  • Davi Allen

    Linda e triste a lenda.