Origens

I

Magnus estava animado em uma roda de conversa contando e se divertindo sobre suas façanhas. Em algum momento, em meio a bebedeira, quase todos os seus parceiros já haviam se deixado estatelar no chão, e assim permaneciam de pé apenas o próprio Magnus e seu mais fiel escudeiro (ou pelo menos era o que se pensava), Adam.

Já tendo quase esgotado o assunto sobre suas aventuras, Magnus se recosta na cadeira e apoia seu pescoço com o rosto projetado para cima. Sua expressão era de grande satisfação no rosto. Isso até ser despertado por uma conversa introdutória de Adam.

– Senhor Magnus, o senhor acabou se esquecendo de nos contar sobre sua mais louvável façanha, como pode se esquecer do incêndio ao circo – disse Adam com um sorriso.

– Ah!, é verdade – respondeu Magnus. Como eu poderia ter esquecido.

– Há uma parte da história que talvez o senhor não conheça – continuou Mateus – naquele dia um homem, após ter achado uma saída do incêndio para sua esposa e uma criança de pouco mais de dez anos, se sentiu na obrigação de ficar e buscar livrar o maior número de pessoas possível, ele conseguiu, se não fosse por ele, muito mais gente teria morrido. Já sua esposa, tendo já conseguido colocar o garoto fora de perigo, voltou atrás do marido; resultado: nenhum dos dois conseguiu voltar de lá.

Magnus solta uma gargalhada e em diz: – Mas rapaz, por que nunca me contou isso, não faz ideia do quanto eu teria me entretido.

– Eu imagino que teria. – Disse e acrescentou após uma breve pausa: – Eles eram meus pais – completou.

Só então Magnus percebeu o ódio e a cede de vingança reprimidos por tempos, que agora nítidos, faiscavam no olhar daquela pessoa ali diante de si.

Imediatamente Magnus levou a mão à cintura em busca de sua arma, mas mal se lembrava ele que havia a deixado sobre a mesa antes daquele momento de descontração.

– Está procurando por isso, Magnus? – Disse mostrando a arma. – Indagou . – Magnus ainda tentou reagir indo em direção a Adam e recuperar sua arma, mas este foi mais rápido e, dando lhe uma coronhada, fez com Magnus caísse no chão e ficasse desacordado por alguns minutos. Foi tempo suficiente para Magnus fosse içado, colocado e amarrado em uma cadeira. Quando acordou, lá estava ele, com os braços em torno do encosto da cadeira, com as mão amarradas para trás. Em sua volta, dezenas de explosivos, todos por sua vez ligados a um extenso pavio. (mais longo que o necessário para que fosse só para que, depois de acendido, alguém  saísse a tempo do local sem ser atingindo pela explosão). O pavio fazia uma espécie de caracol.

Magnus já imaginava para que servia tudo aquilo: era para reservar à vítima alguns minutos de terror e apreensão enquanto o pavio fosse lentamente consumido pela chama até que esta chegasse à outra ponta e então tudo fosse detonado. Técnica que ele conhecia bem.

Adam estava distraído em outro ponto daquele estabelecimento quando ouviu o som de algum objeto de vidro se partindo. Correu desesperado até onde Magnus estava e, ao chegar, viu que este havia feito a cadeira se tombar e agora se debatia para tentar se livrar das cordas que o prendia. Na tentativa, provavelmente havia trombado na mesa e feito uma das garrafas cair ao seu lado.

-Em seu lugar, eu não faria qualquer esforço na tentativa de fugir – disse. Tente entender, me empenhei muito neste meu objetivo e gostaria que tudo saísse conforme o planejado.

– O que pensa que está fazendo? Vamos, me tire daqui – berrava Magnus.

– Você vai ouvir cada palavra do que eu tenho para te dizer.

–  Durante anos – começou. – O simples fato de ouvir o nome de um certo assassino me revoltava profundamente. Esse indivíduo havia tirado tudo de mais valioso que eu possuía, isso quando ainda era uma criança. Ele fez com que me tornasse alguém sozinho, isolado de tudo e de todos. Com o passar do tempo meu ódio só crescia, e pior era saber que nunca teria a oportunidade de me vingar, pois todo mundo acreditava que o assassino havia sido morto pela polícia.

– Parece ironia do destino que tenha acabado no aeroporto e assim ter acesso a uma lista de voos em que havia também a data, o horário, o destinos de cada um deles e todos os seus passageiros. Nunca imaginei que eles pudessem guardar isso por tanto tempo, pode ter sido coincidência. Mas isso não vem ao caso.

– Folheie apenas por curiosidade até que vi algo que me deixou intrigado. Eu descobri no registro do aeroporto uma estranha coincidência: um passageiro chamado Magnus e de sobrenome O’Donnell – o mesmo nome que eu tanto ouvi falarem – havia embarcado pouco tempo antes da morte de alguém coincidentemente com o mesmo nome. Há de concordar comigo que isso foi algo absurdamente muito estranho.

– Realmente, é muito estranho. Mas o que acha que poderia ter ocorrido? – disse Magnus fazendo a expressão de alguém com singular interesse.

-Permita-me continuar então… Tudo isso parecia bastante impossível, mas… e se houvesse alguma chance de você estar vivo? Resolvi investigar! – Disse se levantando.

– Agora está claro, quem morreu não foi você, foi alguém que era a sua cara. Imagino que tenha subornado alguém no aeroporto, uma vez que havia sido impedido de sair do país. Depois disso, um disfarce e pronto. Não podíamos contar naquela época com a sofisticação da segurança do nossos voos internacionais atuais. Ora, apesar dos avanços, até hoje temos problemas. Falhas!

– Procurei num destino comum de estrangeiro em Paris, alguém com certas características. Mostrava algumas fotos recortadas dos jornais antigos. Demorei pouco mais de um ano para perceber que o tal Magnus não residia mais por lá. Confesso que, por maior que fosse meu desejo de justiça, quase desisti. Mas eis que fico sabendo de um criminoso estrangeiro que fizera fama em partes da Europa e que informações em posse da polícia londrina garantiam que ele só poderia ser brasileiro. Que que desde que chegara ali há quase duas década, se estabelecera muito bem no mundo do crime organizado. Falava um inglês arrastado e de sotaque bem diferente dos falantes de Portugal –  isso se descobriu prendendo alguns de seus “agentes” em emboscada das quais você sempre conseguia escapar, concluí.

“Mas não pode ser” – pensou eu.

-Permeie nos mais abomináveis lugares de Londres e… te encontrei finalmente. Precisei atrair a sua atenção. Consegui isso depois que ajudei seu bando a escapar da polícia. Lembro do seu entusiasmo quanto te contei sobre aqui, foi quando pensou estar na hora de voltar e colocar em prática seu plano de vingança. E que bom que foi desta forma, por que aqui eu teria menos empecilho. Pena que um de nós falhou.

– É tarde para bancar o justiceiro agora. Depois de tudo que fez. – Disse Magnus.

-Felizmente, nem um dos quais tirei a vida merece que eu perturbe minha consciência por eles, não podemos dizer que eram exatamente pessoas de bem. Tirando o fato de ter ajudado a colocar vidas de inocentes em risco, como acabo de fazer, e me sentir corresponsável pela morte daquela pobre senhora, o resto do que fiz, eu faria tudo de novo. Isso eu garanto.

– Agora, você e seu bando terão o fim que merecem. Magnus ainda estava caído ao chão amarrado à cadeira. Quanto aos outros, nem mesmo uma tempestade os acordaria. Adam então finalmente acende o pavio. Mas, antes de sair deu uma última e longa olhada, para Magnus. Ali imóvel e inválido, seus olhos pareciam expelir labaredas de fogos.

 

Lá fora, já a uma distância segura, ele calcula alguns instantes e em seguida ouve-se a explosão. Olhando para trás vê a construção já em chamas.

– Pronto! – Exclamou com sua sensação de dever cumprido.

III

– Deve se estar se perguntando, prefeito, por que não o contei sobre minhas pretensões desde voltei à cidade, ou melhor, desde que sai da cidade. – disse. – E a resposta é simples: não poderia correr o risco que estragasse meus planos. Teria tentado me impedir, eu sei. – Disse Adam.

– Compreendo, e pode apostar, eu teria mesmo.

Foi inevitável que o incêndio e o alvoroço de sirenes de bombeiros e viaturas de polícia atraísse curiosos, apesar da escuro, que era atenuado apenas pela luz das chamas que ainda tentavam controlar.

Uma voz ecoou então da escuridão:

– Recebemos um chamado. Camponeses da região relataram ter ouvido um grande estrondo vindo daqui. – Aos poucos, a figura do detetive ia surgindo entremeada pela escuridão.

– Estávamos na casa principal quando ouvido um estrondo fortíssimo, tanto foi que tudo lá dentro chegou a se abalar. Achamos tudo muito impressionante e não sabemos o que aconteceu. – Disse Douglas Underhood. – Penso que possa, talvez, ter sido… digamos… alguma faísca? É verdade que eu guardava, no subsolo, alguns materiais de show pirotécnico para as comemorações de final de ano daqui há seis meses – acrescentou.

– Nós iremos averiguar tudo, investigaremos detalhe por detalhe, quanto a isso pode o senhor ter certeza.

– Claro!

À polícia, o rapaz que Magnus havia ferido na cabeça, teve que se explicar sobre o ferimento. Mas não houve qualquer problemas quanto a isso, “pois ele havia escapado por pouco da explosão e em troca ganhara apenas um corte na cabeça.”

– E não se esqueçam que ainda temos que explicar a morte na queda d’água. Temo que por razões óbvias o senhor não poderá ficar aqui essa. Podem ir.

– Me lembrem de descobrir como ele se tornou uma pessoa tão desprezível. – Disse Adam.

– Disse alguma coisa, cavalheiro?

– Não, de maneira alguma, respondeu o rapaz.

Quando estava a sair, já se aproximando do seu carro, Adam  teve de se desculpar com uma figura que trajava farrapos e uma capa que pouco faria diferença em se cobrir com ela ou não em meio aquele frio. Era incomum que mendigos transitassem por aquela área tão nobre. Mas, dada as circunstâncias que ali se via, tudo era possível. “Deve esperar encontrar algum objeto de valor que possa ter escapado do incêndio, pensou de impulso”.

– Perdão!

– Está bem!

Enquanto fazia o caminho para sua casa, Adam deixou-se notar que algo o incomodava. Mas o que poderia ser? Pensou.

Veio lhe como um golpe na cabeça a lembrança daquela voz que a pouco ouvira. Ela dava-lhe a impressão de já tê-la ouvido antes. Neste momento teve que fazer um movimento brusco no volante e parar seu carro para não atropelar o carneiro que atravessara sua frente.

  • Davi Allen

    Que reviravolta!
    Será o pai dele??

    • Magnus

      Amo

  • Lendo…

  • Quem é o misterioso da capa?

  • “Quando acordou, lá estava ele, com os braços em torno do encosto da cadeira, com as mão amarradas para trás. Em sua volta, dezenas de explosivos, todos por sua vez ligados a um extenso pavi”.

    Magnus terminou mal. https://uploads.disquscdn.com/images/31acdc43ce693a1b03b0598d2ca5a50da326ef7f05b129b995730859bf8013c6.jpg

  • Enquanto fazia o caminho para sua casa, XY deixou-se notar que algo o incomodava. Mas o que poderia ser? Pensou.

  • Mateus

    ‘-‘

  • Comunicação

    A estoria fica melhor a cada capitulo – parabéns pelo desenrolar da série. Muito recomendo o episódio de hoje.