Fábula do menino que morava em um chinelo

ERA UMA VEZ um menino que morava em um chinelo e gostava de soltar pipa.

Ele fez uma pipa grande, colorida e linda. Mas quando estava brincando, e se divertindo muito, veio um vento muito forte e começou a levar sua pipa para longe e cada vez mais alto. Mas o menino amava muito aquela pipa, e resolveu não soltar o barbante e, quando viu, estava voando com sua pipa pelo céu.

  

Então, o vento levou o menino e a pipa para muito longe. E lá do alto ele viu a redondeza da terra, as nuvens bem pertinho, e pensou que chegaria no sol, como naquela estória que ouvira sobre um tal de Ícaro. Mas, quando o vento abrandou, o menino pousou em um deserto que parecia não ter fim. E o menino ficou aliviado, mas muito assustado porque que não sabia como voltar para casa.

Então, da imensidão das dunas de areia, surgiu um camelo. O menino ficou maravilhado porque conhecia camelos apenas dos livros de estórias das Arábias!

– Bom dia, amigo camelo. Podes me ajudar a voltar para casa?

– Bom dia, menino que mora em um chinelo. Posso levá-lo naquela direção, mas somente até o limite entre o deserto e o campo verde que fica além do deserto…

E o menino escalou as corcovas do camelo, e eles correram pelo deserto até que avistaram um lindo campo verde que parecia sem fim.

O menino ficou sozinho outra vez, em meio aquele vasto campo verde. Então chegou um burrinho, troteando pelos campos. O menino ficou enternecido, pois havia lido e relido as estórias de um burrinho chamado Platero.

– Bom dia, amigo burrinho! Podes me ajudar a voltar para casa?

– Bom dia, menino que mora no chinelo! Monte no meu lombo e te levarei até o limite entre o campo e a floresta que fica além do verde campo que nos rodeia.

Ao chegarem na borda da floresta, o burrinho se despediu e o menino ficou outra vez sozinho, olhando para a imensa floresta a sua frente. Até que apareceu um tigre…

O menino ficou assustado, ao lembra-se da estória de Mogli e do terrível tigre Shere Khan. Mas logo percebeu que era um tigre de fábula!

– Bom dia, amigo tigre! Será que podes me ajudar a voltar para casa?

– Bom dia, menino que mora em um chinelo! Posso acompanhá-lo até a fronteira entre a floresta e a margem do grande rio…

E foram os dois, lado a lado, através de caminhos que só o tigre pareceria conhecer. Chegando à margem do largo rio, o fabuloso tigre se despediu, alertando o menino para o perigo das águas e das criaturas que lá vivem. E o menino, outra vez, se viu só.

Eis que as calmas águas do rio se agitaram, e surgiu um bocarrudo jacaré!

– Bom dia, assustador amigo jacaré! Será que podes me ajudar? Quero voltar para minha casa…

– Bom dia, menino que mora em um chinelo. Se subires em minhas costas, podemos atravessar o rio e te deixarei na outra margem.

O menino ficou um pouco apreensivo, já que a boca do jacaré era enorme e tinha um milhão de dentes pontiagudos. Mas o jacaré o tranquilizou:

– Não tenha medo. Sou um jacaré de fábula, e não faço mal a ninguém!

Então, o menino acomodou-se nas nodosas costas do jacaré e seguiram a jornada através das águas, e tudo se passou muito bem. Finalmente, chegaram a outra margem do largo rio, e o jacaré despediu-se, dizendo:

– A partir daqui não posso seguir… são as terras dos homens, e eles me dão medo. Há relatos de amigos meus que viraram bolsas e sapatos… – E ele parecia mesmo muito assustado!

O menino então percebeu uma trilha entre as árvores e se pôs a caminhar, sentindo-se acolhido pelos pássaros e borboletas. E logo viu que o caminho lhe era familiar. E caminhou e caminhou, sentindo-se cada vez mais perto do seu querido chinelo quentinho. E então avistou uma clareira, e soube que estava em casa! E se sentiu feliz e agradecido!

E este foi o final desta aventura!

E então?

Então, a moral da história é a seguinte: nunca estamos sozinhos quando temos coragem de cruzar os limites e fazer amigos. Sempre vai ter alguém bacana para nos acompanhar, mesmo que esse alguém, no começo, nos pareça assustador. Fronteiras são feitas para serem cruzadas. E a diversidade faz o mundo mais lindo.