Contos desconhecidos dos Irmãos Grimm

     

Somos apaixonados por contos de fadas e consumimos essas narrativas no cinema, na literatura e na TV. No entanto, as histórias que aparecem na cultura pop são sempre as mesmas – e não é por falta de material disponível. Aqui, trago alguns contos pouco conhecidos dos Irmãos Grimm. Você vai encontrar princesas cheias de truques, uma pobre mulher que ousa desafiar Deus e um diabo surpreendentemente gentil.

O Palácio de Neuschwanstein, na Baviera, serviu de inspiração para o famoso castelo da Cinderela criado por Walt Disney

Contos de Fada estão na moda. Seriados de sucesso, como Once Upon a Time e Grimm, têm roteiros inspirados nessas narrativas, e os estúdios cinematográficos fazem fortuna com o tema. No entanto, embora as releituras variem – das comédias Disney aos textos eróticos de Nancy Madore –, os contos escolhidos são sempre os mesmos. Brancas de Neve, Belas Adormecidas e Rapunzéis dominam o mundo pop e não deixam margem para que outros textos venham à tona. Torcendo para equilibrar essa balança, resumi algumas aventuras dos Irmãos Grimm que merecem destaque.

O amado Rolando: uma bruxa má decide assassinar a enteada enquanto ela dorme. A esperta moça, no entanto, troca de posição com a filha da malvada, e, sem perceber, a madrasta mata sua própria menina. Antes que o dia amanheça, a mocinha chama seu amado, Rolando, e, armados com uma varinha de condão roubada, os dois fogem pela floresta. Quando a bruxa os alcança, eles transmutam um ao outro com a varinha: tornam-se um lago e um pato e não podem ser pegos. A megera, entretanto, faz com que Rolando se esqueça de seu amor. Mas nem tudo está perdido… Transmutada em flor, a boa jovem é colhida por um pastor, que rompe o feitiço e a prepara para reencontrar sua paixão. Ao ouvir a voz de sua amada, Rolando relembra seus sentimentos e o encanto é quebrado.

Os irmãos Grimm ganharam notoriedade no mundo todo com sua compilação de histórias populares com elementos fantásticos

O pescador e sua mulher: com jeito de parábola, esta é a história de um pescador muito pobre, o qual mora com a esposa em um barraco caindo aos pedaços. Um belo dia, ele pesca um peixe falante, que revela ser um príncipe enfeitiçado. Ele poupa a vida do peixe, mas, obrigado pela mulher, torna a procurá-lo e exige uma recompensa. Ela quer uma cabana – e consegue. Mas a satisfação dura pouco. Logo o pescador é mandado de volta em busca do animal mágico, para conseguir um castelo. O pedido é atendido, mas isso também é pouco. A esposa deseja mais e mais: quer ser rei. Depois, imperador. E, então, papa. Tudo é concedido. Até que a mulher decide ser “como o bom Deus”. E o peixe manda os dois de volta à velha pocilga.

O irmão fuliginoso do diabo: diversos contos dos Irmãos Grimm trazem o diabo como protetor do herói e, ao contrário do que imaginamos, o demônio se mantém leal até o fim. Neste texto, vemos um jovem soldado sem condições de se manter. Satã aparece em seu caminho e lhe oferece um acordo: ele deveria servi-lo por sete anos no inferno, sem se lavar ou se pentear, e jamais poderia olhar nos caldeirões infernais. Ao fim do prazo, o homem teria riquezas para toda a vida. O jovem aceita, mas acaba destampando as caldeiras. No entanto, ao encontrar quem o maltratou no exército, ele põe mais lenha na fogueira – e cai nas graças do diabo. Ao fim de seu contrato, é agraciado com ouro. E, quando sua fortuna é roubada, o coisa-ruim oferece ajuda: cuida da aparência do moço e se livra do ladrão. Rico e protegido, o homem se casa com uma linda princesa e torna-se rei.

Diversas editoras produzem versões dos contos de Grimm. A edição da Cosac Naify traz belas ilustrações do gravurista e cordelista J. Borges. Aqui, ele retrata “O nariz comprido”

O nariz comprido: três velhos mendigam para viver. Um dia, eles se perdem no bosque e encontram um homenzinho vermelho com poderes mágicos. Cada ancião recebe um presente: um saco cujas riquezas jamais se esgotam, um casaco que transporta seu dono a qualquer lugar e uma corneta que convoca um batalhão. A vida torna-se próspera para os três, os quais passam a viver com a nobreza. Em uma festa, uma princesa má troca a sacola mágica por um saco comum. Um dos velhos tenta recuperar o artefato, mas é obrigado a fugir e perde o casaco enfeitiçado no caminho. Mesmo ao convocarem um exército com a corneta, eles não conseguem vencer, e a jovem rouba o instrumento para si. Desolado, um dos anciões parte para a floresta, onde mata sua fome com maçãs. Os frutos fazem seu nariz crescer tanto, que ele não pode mais se mexer. Os amigos o reencontram, mas não podem ajudá-lo. Então, o trio é novamente agraciado pelo pequenino vermelho, cuja pera mágica reverte o feitiço. Com as frutas em mãos, os velhos bolam um plano: um deles se infiltra no castelo da princesa, ofertando raras maçãs. Logo ela come as frutas, e seu nariz começa a dar voltas no castelo. Então, um segundo velho se apresenta como médico. Com as maçãs e peras, ele faz o que quer com o rosto da princesa, até obrigá-la a devolver os pertences roubados. Exausta, ela concorda, e os velhos voltam à boa vida.

x

Há, ainda, diversos outros contos repletos mistério, os quais nunca caíram nas graças da cultura pop – mas, felizmente, é possível ler essas histórias em português. No Brasil, a editora Rocco fez uma boa compilação e traz como prefácio uma análise junguiana feita por Clarissa Pinkola Estés. Outras boas sugestões são as edições feitas pela Paulus e pela Cosac Naify – dois trabalhos que primam pelo capricho ao traduzirem as histórias originais direto do alemão para o português.