Orgulho e Preconceito: A obra que atravessa o tempo

 

Com uma observação atenta e categórica do real, Jane Austen, criou sua obra-prima inspirada na sociedade inglesa do século XIX, obra que sobrevive ao tempo, e hoje, 200 anos após sua publicação, os personagens parecem superar os séculos, sendo tão reais e palpáveis que continuam ícones de amor e ódio. A intensa guerra de classes, a negação dos sentimentos, o interesse material, as tradições machistas… Em pleno século XXI tudo isso ainda é palpável e nítido.

Dessa forma, serão pontuados temas e complexidades composicionais dos personagens que não nos soa distante do que encontramos hoje, e talvez explique o estrondoso sucesso do livro, mesmo tendo passado dois séculos da sua ambientação original.

Assim, podemos citar a busca por um bom casamento, que mesmo que ponderada por uma série de conquistas femininas, ainda se faz presente no berço de inúmeras famílias. Muitas mães não fogem à regra de Mrs. Bennet e acreditam que um marido rico é garantia de futuro e felicidade para as filhas, mesmo que isso signifique um sacrifício de sonhos e anseios.

Do outro lado, temos o preconceito sobre a mobilidade social, que ainda continua forte e presente. Percebemos na construção clara das personagens, uma enorme insatisfação pela união de um rico com uma pobre. Negando que possa existir outro sentimento que não seja o interesse financeiro. Jane e Charles pontuam bem essa crítica severa da autora, vivendo um romance pausado inúmeras vezes pela influência externa e pela pressão social.

Passeando ainda pelos personagens coadjuvantes da obra, encontramos Wickham, ele cultiva as mesmas práticas de muitos homens contemporâneos, sendo facilmente encontrado nas telenovelas e best-sellers de hoje. Aliás, o típico cara superficialmente charmoso e mentiroso é atemporal e até clichê.

Contudo, a autora não cai no “mais do mesmo” com Elizabeth Bennet, que não é a mocinha arquetípica explorada pelos escritores românticos da época. Jane Austen seguiu um padrão diferente: Cria uma heroína que ultrapassa os domínios da beleza e não se detém aos costumes e às regras. Conquista seu amado não pela aparência e doçura vazia, mas pelas opiniões inteligentes e personalidade forte.

Por fim, e não por ordem de importância , temos Fitzwilliam Darcy , o protagonista da obra e par romântico de Elizabeth. Construído de maneira complexa e avessa ao costume, odiamos e amamos Darcy inúmeras vezes ao decorrer do livro. De maneira sublime, Austen vai quebrando o orgulho e o preconceito intrínseco ao personagem, na medida em que ele vai se envolvendo com Elizabeth e admirando os seus valores e princípios.

Darcy não é o herói esperado, é detestável em alguns momentos. Rispidez e arrogância são características claras dele. Não é gentil e não se fascina a primeira vista por Lizzy.

“Ela é tolerável, mas não bela o bastante para me tentar. Não estou com ânimo no momento para consolar jovens rejeitadas por outros homens”.

Regado de inúmeras outras delicadezas como essa, Fitzwilliam, se mostra pretensioso e duro até quase o meio da obra, quando, finalmente, reconhece seus sentimentos e revela sua verdadeira face. Nesse momento, somos presenteados com uma quebra do paradigma do amor romântico instantâneo.

“Não posso fixar a hora ou o lugar. (Quando questionado por Lizzy quando havia começado a amá-la ) Isto já foi há muito tempo. Eu já estava no meio e ainda não sabia que tinha começado.”

Assim, mais uma vez Jane é precisa em sua observação do real. Afinal, quem percebe o momento em que se apaixona?

“Querida, adorável Elizabeth, quanto lhe devo! Ensinou-me uma lição, muito dura, a princípio, mas muito vantajosa. Por suas mãos recebi a humilhação que devia. Aproximei-me de você sem duvidar de que seria aceito. Sua recusa me mostrou como eram insuficientes minhas pretensões de agradar uma mulher digna de ser agradada”

Por declarações como esta, por quebrar o estereótipo de “príncipe encantado” , por transitar entre o amor e o ódio e , sobretudo, por viver uma paixão tão forte ao ponto de lhe tornar um homem melhor, é que Darcy é um ícone bicentenário.

Inclusive, em O Diário de Bridget Jones-livro que inspirou o filme homônimo– , o senhor Mark Darcy faz referência direta- inclusive pelo sobrenome- ao protagonista da obra de Austen, mantendo uma relação de repúdio e depois de amor com Bridget. Mesmo tendo passado tanto tempo da publicação do romance ele ainda inspira produções dos anos 2000 porque de alguma forma toca e aproxima a realidade, as projeções e as fantasias dos espectadores e leitores do retratado na ficção.

Assim, percebemos os frutos de um trabalho minucioso de uma das maiores escritoras de todos os tempos, que foi muito além da criação de uma estória. Jane vasculhou o íntimo das pessoas, foi ao fundo de uma sociedade preconceituosa e cheia de mazelas, revelou de maneira crua aquilo que o orgulho esconde, moldou um protagonista cheio de defeitos ,mas com qualidades que as superam, criou uma heroína audaciosa que inspirou – e inspira- centena de milhares de mulheres por todo o mundo. Resumindo, criou uma obra digna de superar o tempo.

Tanto o livro como o filme, valem a pena!

Trailer

  • O romance parece ser ótimo, foge do clichê e concordo demais com essa frase:
    “Afinal, quem percebe o momento em que se apaixona?”

  • Bob, o construtor

    Lindo o filme

  • Pauloncé ★

    Amo quando os protagonistas são cheios de defeitos, isso cativa o público.