Afinal, existimos quando ninguém nos vê?

Ao mesmo tempo em que buscamos no outro o reconhecimento de nossa existência enquanto fenômeno, tememos, através do olhar crítico do outro, criar uma identidade indesejada sobre quem gostaríamos de ser. Receamos virar somente objeto e não um sujeito que se objetifica ao revelar-se em direção ao outro. Somos espelhos que se refletem e refratam na mesma medida.

Quem sou eu? Podemos dizer que somos algo de fato mesmo quando sozinhos ou somos algo somente de acordo com o olhar do outro? Afinal, existimos quando ninguém nos vê? E qual a importância do outro nesta dialética construtiva de quem somos?

Esta questão marcante na ontologia, atravessa a história do homem e aparece em diferentes correntes filosóficas, entre elas a escolástica, o realismo, o idealismo etc.

Existencialistas e fenomenólogos como Merleau-Ponty, porém, se destacaram significativamente nesta área. Eles pensam a nossa existência como um fenômeno que depende intimamente do outro. Esta voz que temos em nosso interior que nos impulsiona a fazer coisas, depende de um alguém que veja o que estamos fazendo. Somos ao mesmo tempo sujeito e objeto. Somos o contorno e o pano de fundo simultaneamente.

Neste sentido, penso que as redes sociais são um grande exemplo do querer ser visto para ser. Não basta ver uma paisagem maravilhosa com os nossos olhos, tudo se torna magicamente mais real quando compartilhado e endossado por outros.

Mas por quê? Será que somos apenas formas esperando projetar no outro nossos conteúdos para que estas passem a existir? E se é assim, de onde partem estes conteúdos então?

Alguns filósofos como Parmênides, argumentam que o conteúdo está na coisa em si de maneira constante. Outros como Ortega y Gasset afirmam que não há conteúdo. Ou seja, que não existe o algo em si e que o algo que somos é sempre uma construção. Para ele somos inseparáveis das nossas circunstâncias. Somos a própria circunstância. Existir é um conversar com nossas circunstâncias, reinventando-nos neste jogo dialético de percepções.

Para Sartre, ao mesmo tempo que buscamos no outro o reconhecimento de nossa existência enquanto fenômeno, tememos, através do olhar crítico do outro, criar uma identidade indesejada sobre quem gostaríamos de ser. Receamos virar somente objeto e não um objeto que se subjetifica ao revelar-se em direção ao outro. Ser um sujeito implica projetar em primeira instância nossa subjetividade em objeto e torcer para que o outro perceba que, por trás do objeto há uma subjetividade que a impulsiona. Somos espelhos que se refletem e refratam na mesma medida.

A roupa nova do imperador de Hans Christian Andersen é um grande exemplo deste medo fundamentalmente existencialista que temos do olhar circunscrito do outro. Os personagens deste conto percebem-se impostores de si mesmos e temem ser descobertos, desmascarados pelo outro. Movidos pelo medo de que descubram que não são tão inteligentes como parecem, eles copiam o comportamento e os argumentos uns dos outros para mascarar a inadequação de saber-se um vazio variante, que muda conforme a relação seja com outros, ou com o espaço.

Circunstâncias são variáveis. Portanto, se somos nossas circunstâncias, somos algo e nada ao mesmo tempo. Somos um vazio que se agrupa, que se (re)forrma ao enredar-se em circunstâncias espelhando-nos uns nos outros, preenchendo-nos de reflexos disfarçados de imagens.

  • Sobre o tema, gosto da frase do Descartes: “Penso, logo existo”.

  • Pedro Augusto

    Claramente eu, esse post me define