Como tratamos o conhecimento

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Costuma-se dizer que a maior vantagem do ser humano sobre os outros animais é a racionalidade, e isso é uma grande verdade, mas muitas vezes não refletimos sobre o que isso realmente significa. Acima de apenas poder pensar por si só, isso significa poder obter conhecimento. Conhecimento nada mais é do que o resultado do acúmulo de experiências vividas ao longo de toda a trajetória humana até aqui. Se temos conhecimento sobre algum assunto, foi porque lemos sobre ele, e se nós lemos, foi porque algum outro alguém escreveu. Este outro alguém precisou ler outros livros de outros autores para saber o que ele sabe, e assim por diante.

E todo este acúmulo e repasse de informações teve um início. Pense em como se deu o primeiro conhecimento obtido pela humanidade. Vamos supor que nos primórdios algum humano de determinada tribo descobriu como fazer fogo. Ele não guardou essa informação para si, e a compartilhou com seus semelhantes através da linguagem. Agora, tanto ele quanto o resto da tribo tinham o conhecimento sobre algo fundamental para sua sobrevivência. Os outros animais até poderiam se deparar com alguma técnica ou informação que lhes garantisse a sobrevivência, como a descoberta de como extrair determinado alimento da vegetação ou em que local fica um riacho, mas por serem irracionais, não têm a habilidade de perpetuar essas informações, pois não podem compartilhá-la como nós o fazemos, e nem podem registra-la.

Conhecimento, portanto, para além de ser apenas poder, também é um bem coletivo. Mas não é assim que a maioria da população costuma tratá-lo. Isso porque, muitas pessoas, por não conhecerem o seu real valor, tratam-no apenas como um objeto que eleva alguém acima dos outros. Ninguém mais busca o conhecimento com o objetivo de melhorar a si mesmo ou aprimorá-lo para a coletividade, mas sim com o objetivo de crescimento pessoal.

Estudamos para passar em provas, concursos, e para arrumar um emprego. Limitamos o conhecimento a uma mera ferramenta descartável, que será usada apenas quando necessário – como se ele fosse apenas só isso. Porque no fundo é assim que tratamos a arte do saber: apenas como um meio de se atingir algo ou apenas como um meio de se conquistar o que os outros não têm. E por tratarmos assim o conhecimento, costumamos nos ofender com quem o tem. Costumamos achar que o outro estudou para ser melhor que nós; eis aqui um dos poucos adventos ruins do capitalismo: fazer-nos achar que tudo na vida é uma questão de competição e elevação acima dos demais. E o conhecimento, como já dito, caiu em tal percepção.

Para ilustrar o que digo, peço que vocês imaginem uma cena que provavelmente todos nós já vivenciamos quando estávamos na escola: o nerd da sala respondendo certinho às perguntas que a professora fez à toda a turma. A maioria imediatamente o olha com certo desprezo, como se ele estivesse se exibindo e como se o fato de ele saber mais que os outros fosse um indicativo de que ele é superior, e não apenas uma pessoa dedicada. Ele não é superior, ele só estudou e obteve mais conhecimento que os demais. Os outros poderiam ser racionais e tentar aprender com ele, aprender como ele fez para saber de tudo o que sabe, como ele costuma se organizar para estudar e atingir tal nível, enfim, aprender como melhorar da mesma forma. Mas, ao invés disso, preferem ridicularizá-lo, colocar apelidos e fazê-lo de chacota, porque, ao depararem-se com alguém “melhor”, a maioria prefere odiar este alguém a aprender com ele como conseguir ser tão bom quanto.

Portanto, no caso do “nerd” humilhado, este é o único mecanismo de defesa que as pessoas apresentam ao serem confrontadas com quem de alguma forma fez melhor que elas a tarefa de estudar. Claro que não quero aqui generalizar, nem todos são assim, mas a imagem popular que temos do “nerd” como sendo o excluído, antissocial e vítima de chacota é a prova de que a maioria age assim.Resultado de imagem para dexter desenho wallpaper

Não há culpados nessa história, não se trata de uma característica individual agir assim, trata-se apenas da forma como fomos criados. Isso porque, por trás de tudo isso está a nossa visão errada de que tudo se baseia na competição e na elevação pessoal – em quem é melhor e pior – e de que o conhecimento é uma ferramenta usada em tal competição. Não somos, portanto, culpados por termos aprendido desta forma. Somos todos frutos de uma determinada criação, que é o resultado de uma construção social.

Desde cedo, é comum ouvirmos de nossos pais: “estude, para ser alguém na vida”, “estude, para ganhar dinheiro”, “estude, para arrumar um emprego”. A presença do “para” sempre após a palavra “estude” indica que nós tratamos o conhecimento como um meio de se atingir algo, e não como um fim em si mesmo. Ele, em essência, serve para melhorar a nós mesmos e a nossa coletividade, e não como uma mera ferramenta usada para se obter bens materiais, status, emprego ou prêmios.

E talvez seja por isso que a maioria de nós odeie estudar e ir para a escola, porque a sociedade, ao tratar do conhecimento como uma ferramenta usada para se atingir determinado objetivo, transformou o estudo em obrigação. Mais que isso: tornou-o uma “coisa” que se limita às escolas, com seus horários instituídos, seus uniformes, suas listas de presença e sua mensalidade. Isso nos faz achar, desde cedo, que ele é frio, burocrático e sistematizado, e não algo natural e espontâneo, porque desde cedo nós o associamos ao compromisso; ou seja, temos que levantar cedo, temos que pegar nos livros, temos que estudar para a prova, temos que comparecer às aulas. Eis aí a explicação do porquê temos aversão a ele.

Como mudar?

O que seria preciso mudar, então? Em minha opinião, o que deve mudar é este costume de fazer crer que o conhecimento e a formação intelectual só podem ser obtidos através das instituições de ensino. Além de burocratizar uma atividade natural, que é estudar, nós fazemos as pessoas crescerem com a impressão de que a oportunidade de se obter conhecimento se destina apenas às escolas ou faculdades, como se fora delas não houvesse possibilidade de consegui-lo.

Por isso valorizamos mais o diploma e o boletim azul do que o prazer de se aprender algo novo, que é justamente o que vale a pena, no final das contas; o diploma representa exatamente a única vantagem que a sociedade enxerga no estudo, isto é, uma vantagem material, baseada na perspectiva de se conseguir algo em troca, como status ou emprego. Claro que não há nada de errado em se buscar status, emprego ou um futuro melhor, o que critico aqui é a forma como enxergamos o conhecimento como apenas uma ferramenta descartável para se atingir estas coisas. É preciso, então, desenvolver em nossos filhos, quando os tivermos, a fome pelo conhecimento à partir do que ele é, e não do que ele pode materialmente proporcionar.

Como fazer isso? Mostrando a eles como o aprendizado pode-lhes abrir as portas para um mundo novo, para soluções novas. Desenvolver neles o prazer de descobrir o que não se sabia antes. Isso fará com que eles achem o estudo interessante, porque eles vão saber que, em estudando, obterão soluções, respostas para problemas práticos e revelações das causas primárias que estão por trás de tudo, das quais antes não tinham conhecimento. É essa vontade de descobrir que servirá de combustível ao estudo. Claro que as instituições de ensino (escolas, faculdades, cursos, etc) são necessárias e fundamentais, mas apenas para tratar da alfabetização, assuntos básicos, e para servir como uma orientação, e não como a única forma de se aprender tudo o que se pode aprender.

O maior prêmio de quem obtém conhecimento não é “passar de ano”, nem conseguir um diploma, ganhar um emprego e nem conquistar um Nobel, mas sim ter a satisfação de se sentir pleno ao saber como tudo funciona, as causas que estão por trás de tudo o que nos rodeia na realidade em que estamos inseridos, e a segurança de saber que se é capaz de resolver problemas práticos usando o que aprendemos. Todos os outros benefícios são secundários e poderão ser conquistados por consequência desta nova consciência, desta nova forma de se encarar o conhecimento.

 

  • TIAO GAVIAO

    OTIMO TEXTO´,PARABENS MIGO.

  • Magnus

    A pior coisa é estudar para passar na prova, rs… as vezes a gente esquece metade do que leu.

  • Hoje é muita “decoreba” e pouco conhecimento, parabéns pelo belo texto reflexivo Douglas!

  • Que texto maravilhoso! Temos que buscar o conhecimento por ele próprio e não por uma obrigação. Parabéns, Douglas Marques!!

  • Frank Underwood

    Ótimo texto, xará. Realmente, me identifiquei com a parte do boletim, principalmente quando somos crianças e temos que mostrá-lo a nossos pais. Parabéns pelo retorno.