Os brasileiros e a política

 

Nestas últimas semanas, o país tem parado a cada novo acontecimento político que se dá em Brasília. Estamos vivendo o ápice de uma história que já vem se desenrolando há muito tempo: nunca antes as pessoas mostraram tanto interesse pela política. A seriedade e a raridade intrínsecas a um processo de impeachment, claro, colaboram para isso; mas o interesse das pessoas pela política, sobretudo das classes mais jovens, já soma um tempo considerável que vem bem antes da abertura deste processo por Eduardo Cunha.

Claro, não se trata de pessoas cientes do que realmente está acontecendo. Em todo o planeta, o Brasil é a maior concentração de pessoas, por metro quadrado, que discutem sobre o que não sabem. Mas, tratando especificamente da classe dos jovens, a discussão acerca do universo político, seja o grau de qualidade dela qual for, é algo notável e atípico neste país – e também muito importante, pois mostra que as pessoas, desde cedo, estão se inteirando sobre a política nacional, o que serve como uma boa introdução para um futuro em que elas dominarão o assunto.

Mas isso traz consigo alguns problemas, dentre os quais, um antigo, que sempre enfrentamos e que está aumentando cada vez mais…

O ódio

As pessoas sempre tiveram opiniões, ideologias, preferências e crenças diferentes. Mas isso nunca foi um problema em um mundo não globalizado. Com a globalização e o consequente aumento da interação entre pessoas diferentes, o choque de culturas foi inevitável, levando a guerras e ao ódio. Contudo, fomos nos civilizando cada vez mais, e aprendendo a aceitar e tolerar a visão de mundo que o outro tem, o que fez com que ao menos as guerras cessassem em sua quase totalidade, mas o ódio continuou presente, pois ele é interno (ao contrário da guerra). Eliminar o que é interno é quase impossível.

Sendo assim, à medida que a globalização cada vez mais ia aumentando, nossa civilidade acompanhava o processo, mas as interações e o choque de culturas continuavam ali, acompanhando o crescimento da globalização e semeando o ódio dentro de nós. O ápice deste nível de interação e do choque cultural veio com o advento da internet. As redes sociais, por natureza, misturam e aproximam pessoas que pensam diferente. E como nós, humanos, somos seres passionais, nunca conseguiremos agir com indiferença a um confronto com quem pensa diferente, por mais tolerantes que nos achemos.

O resultado disso tudo nós vemos em nosso dia-a-dia virtual: brigas e mais brigas, motivadas pelos mais variados motivos – alguns, bobos ao extremo, outros, relevantes. É neste ambiente que o debate político está se dando atualmente, no Brasil, e aí podemos começar a entender o crescente ódio presente neste debate. Por mais que as pessoas tentem parecer “respeitosas” e “democráticas”, sempre agem da mesma forma, tentando impor ao outro a sua ideologia e se recusando a ouvir a do outro. Perdemos a capacidade de saber debater (ou, será que um dia a tivemos?).

O fato é que, não é só o não saber debater que empobrece o debate; a falta de conhecimento, dos dois lados, também o faz. Isso faz com que o nível das discussões permaneça sete palmos abaixo do pré-sal. Geralmente há um consenso: “políticos são, todos, ladrões”. Este consenso revela nossa própria incapacidade de conhecer o ambiente político, e a nossa ignorância também; afinal, se não posso entender toda a complexidade de um assunto, vou me limitar a resumi-lo sempre em um único conceito. Mas esta nossa ignorância tem um preço.

O futuro do país

No contexto político atual, falando especificamente da maioria da população (que é leiga), a discussão do impeachment gira entorno do “Dilma tem que sair porque petista é tudo ladrão” e “Não adianta tirar Dilma porque vai continuar a mesma coisa, já que político é tudo ladrão”. Ambos os lados estão errados, pois generalizam, e nenhum deles “toca na ferida”. É um ótimo exemplo da falta de conhecimento que empobrece o debate, da qual estamos tratando; quando os dois lados dizem que “só tem ladrão”, estão, na verdade, mascarando o seu desconhecimento sobre o assunto. Porque no Brasil é assim, estamos sempre reclamando da política, mas nunca sabemos ser específicos e apontar os reais causadores dos problemas. Não sabemos quem são os responsáveis, quais leis estão erradas ou o que, precisamente, necessita ser mudado; ou seja, é uma briga de cegos.

Tomemos como exemplo a discussão do “quem vem depois”, com a queda de Dilma (que já é tão certa quanto dois mais dois são quatro). As pessoas argumentam que, quem quer que venha depois, não fará diferença. É um sentimento de descrença na política como um todo. Esta descrença, na verdade, tem origem na própria ignorância do povo, que não tem um partido e nem um candidato, ou seja, não tem convicção. Mas o povo não a tem porque político realmente “é tudo ladrão” mesmo ou porque sequer se esforça para entender todo o processo e saber separar os bons dos ruins?

O fato é que há alguém sério e honrado, que merece a presidência, mas essa pessoa é desconhecida pelo fato de o desinteresse da população pela política em todos os momentos, e sua consequente ignorância, ser grande. Mas há duas exceções neste meio: os seguidores de Lula e Bolsonaro, pois constituem um raro caso em que pessoas estão convictas a respeito de que alguém vá mudar o país. A convicção é melhor que a não convicção; e neste meio de convictos e inconvictos, podemos dizer que o país está dividido?

O país está dividido?

O discurso petista costuma dividir o país entre ricos e pobres. Dizendo que “as elites não querem que o pobre cresça e ascenda às classes mais altas”, o PT consegue, ainda, angariar apoio de milhões de pessoas rasas (como meu pai, por exemplo).

Por isso, eles costumam dizer que o povo está com Dilma; mas como pode o povo não conseguir somar mais pessoas nas ruas? As “elites” estão em maior número?

A verdade é que as manifestações pró-impeachment provaram o óbvio: o povo não está com Dilma (as pesquisas populares de aprovação do governo também mostram isso).  Isso elimina também o mito das elites e o discurso lulista do “eles contra nós”. Lula gosta de dividir o país, como bem disse Silvio Santos. Seja por convicção ou por malícia, Lula divide todos entre ricos e pobres e brancos e negros, e gosta de colocar os dois lados em confronto. Isso fica evidente quando lembramos de sua absurda afirmação, durante a crise de 2008: “esta crise foi causada por gente branca, de olhos azuis, que se acham entendidas”. Mas uma divisão talvez esteja correta: os “coxinhas” contra os “mortadelas”.

O país está dividido entre apoiadores e críticos do PT, sendo que estes últimos estão em maioria esmagadora, e os primeiros só estão apoiando o partido por fazerem parte de movimentos, por beneficiarem-se de alguma concessão governamental ou por serem filiados ao próprio partido (ou seja, algo eles ganham para defenderem o indefensável). Eles vestem vermelho, e não as cores da nação; seu interesse é pela melhoria de uma parte ou pelo benefício próprio, e não pelo bem-estar da população como um todo.

Por exemplo, nas manifestações do dia 18 de Março, vulgo Mortadela Day, foram oferecidos incentivos, tais como: ônibus fretado, 50 à 30 reais para quem fosse; além do fato de que carros de som passavam nas ruas espalhando medo ao dizer “Se Dilma sair, vocês perderão seus benefícios”. Ou seja, quando o incentivo material não movia as pessoas, a coerção o fazia. Mas, se democracia é convicção e espontaneidade em eleger representantes, o incentivo e coerção são legítimos? Legais eles são, pois não há nada que impeça alguém de exercer seu direito ao voto ou à livre expressão só porque a pessoa está sendo movida pelo medo de perder algo ou por um benefício; mas é legítimo? Obviamente, não. Não há espontaneidade em um povo que vota assim, pois isso vai contra a cidadania.

Ser cidadão é pensar no todo, tendo convicção de que se faz parte do todo. Ter consciência coletiva. Quem vota por interesses alheios não exerce cidadania, pois não está votando pelo todo, mas sim por si mesmo. Claro, é fácil ser cidadão quando se está de barriga cheia e sob um teto, mas o que critico aqui não é quem vota pelo benefício, mas sim quem induz a população indefesa a agir assim. O PT quer a dependência do povo.

Portanto, pode-se dizer que o PT é um desserviço à democracia plena, por mais que eles digam ser “defensores” da mesma. Na verdade, eles não defendem a democracia, a menos que a democracia os tenha elegido. Se apegam ao discurso democrático porque Dilma foi eleita.

A verdade é que, se a democracia é a voz da maioria do povo, e, tendo em vista que esta mesma maioria quer a saída de Dilma, o impeachment é democrático. Mas eles dizem que não, pois se apegam às antigas pessoas de 2014 que elegeram Dilma. Digo antigas, pois elas já não são mais as mesmas, com os mesmos desejos – foram traídas, enganadas por atos que não só não cumpriram promessas feitas como também foram exercidos em contrariedade ao prometido. O PT se apega ao passado – ou seja, à uma mera formalidade, que é a eleição teoricamente legítima de Dilma Rousseff em 2014 – porque sabe que no presente já não conta com o mesmo apoio.

Conclusão

 

O que devemos aprender com todo este cenário político atual, por fim, é que a chave para o sucesso é saber a ferramenta que se tem nas mãos. Temos um voto e todos os meios necessários para se saber em quem votamos. Acima de tudo, precisamos entender o sistema: o Brasil é um presidencialismo de coalizão. Antes de votarmos, precisamos estar a par não das promessas do partido, mas sim das propostas da coalizão.

Também não podemos nos enganar pelos discursos e nem pelas aparências. O maior exemplo disso é quem está por vir: Michel Temer. Temer se move de acordo com a conveniência. Ele já foi contra muitas questões das quais hoje é a favor, e é a favor de muitas das quais já foi contra. Não é falta de convicção, pois ele sabe, no fundo, o que quer. É malandragem, é esperteza, é a busca pelo benefício próprio em detrimento da espontaneidade e sinceridade. Queremos alguém assim? Continuando ainda no mesmo exemplo, será que um eleitor atento aos discursos, que acompanhe a trajetória dos políticos, já não captaria a essência de quem é Temer? E o bandido do Eduardo Cunha? Alguém que o tivesse acompanhado desde sempre, se surpreenderia com quem realmente ele revelou ser? A chave de tudo está sempre no conhecimento, que vem através da busca. O brasileiro está politizado, mas de nada isto adianta se ele continuar sendo politicamente ignorante.

 logo refletindo.
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  • Gutrax

    Boa matéria.