Você é um filósofo


Quando você ouve a palavra “filósofo”, pensa em alguém importante, inteligente e diferente da maioria das pessoas. Ao menos quanto a esta última impressão, você está errado.

Em essência, não há nenhuma diferença entre você e os maiores filósofos da humanidade.

Diferente de muitas outras ciências(como a matemática, por exemplo), a filosofia não exige de você nenhum conhecimento prévio de leis básicas que se aplicam a tudo. Ela exige apenas a capacidade básica que está à disposição de todos nós: o pensar. Ninguém nasce pronto para ser um físico, porque antes é necessário entender as leis básicas da Física; ninguém nasce pronto para ser um matemático, pois antes é necessário entender todas as operações que envolvem os números; ninguém nasce pronto para ser um médico, pois antes há de se entender o funcionamento do corpo humano.

Mas todos nós já nascemos prontos para ser filósofos, porque para sê-lo é necessária, além da capacidade de pensar, aquela característica básica que todos possuímos: a curiosidade.

Graças a isso, a filosofia é considerada a mãe de todas as ciências; porque os primeiros físicos, matemáticos e médicos que pisaram neste mundo e que fundaram suas respectivas ciências, tiveram que pensar à respeito de tudo aquilo que acontecia ao seu redor antes de ajudarem a fundar as leis básicas tanto da Física como da Matemática e Medicina, e o fizeram movidos sempre pela curiosidade e o querer entender como as coisas funcionam. Acima de tudo, o fizeram por amor à sabedoria – Amor(philo) à sabedoria(sophia). Eram, antes de tudo, filósofos.

Como tudo começou

Este mundo formado por pessoas racionais que usam a lógica para solucionar os problemas vigentes, e ao qual estamos acostumados, nem sempre existiu. Desde o momento em que os primeiros humanos pisaram na Terra, a resposta mais comum destes às imprevisibilidades da natureza era uma natural invenção de seres místicos que estivessem acima de tudo e que assim pudessem lhes confortar ao dar ao menos a impressão de que podiam explicar o mundo tão complexo que os rodeavam(posteriormente escreverei um texto explicando por que isto não se aplica ao Deus judaico-cristão e por que Ele sim deve ser considerado o Criador ao invés de mera invenção).

Este cenário de deuses como forma de explicar tudo o que existia e todos os fenômenos da natureza se estendeu até a era da Grécia Antiga, na qual nasceu o primeiro filósofo do mundo: Tales de Mileto.

Tales foi, até onde se sabe, o primeiro ser humano da história a analisar racionalmente os fenômenos da natureza. Ao invés de atribui-los a deuses como Zeus, como era de costume na época, ele se valeu da pura e simples observação do mundo ao seu redor para formular uma explicação que em si só era revolucionária.

Já que tudo ao nosso redor está ou em estado sólido, ou líquido, ou gasoso – e como já se sabia que a água existe em ambos os estados – ele deduziu que esta, a água, era a substância fundamental da qual o mundo era constituído.

Sua teoria, embora saibamos estar errada, foi um marco porque fundava-se em bases racionais de explicação, ao invés de se valer do sobrenatural. Pela primeira vez um ser humano observou a natureza e explicou seus fundamentos baseando-se na própria natureza e em um pensamento cíclico de “se … então”. Nascia ali a Filosofia.

Ao longo dos séculos seguintes, com a disseminação da racionalidade peculiar de Tales, nasceram outros homens que se dispuseram a observar a natureza com os olhos da razão, ao invés da simples atribuição dos fenômenos aos deuses. Homens estes que fundaram todas as ciências que conhecemos hoje. Química, Física, Matemática, Biologia, Medicina – não importa – todas elas são filhas da atitude racional da observação e do pensar, filhas da Filosofia.

Então…

O que Tales tinha de especial? Ele dominava algum conhecimento extraordinário? Ele dispunha de alguma capacidade ímpar que ninguém mais tinha? Ele era diferente das demais pessoas? Não. Ele era exatamente igual a mim e a você, com a mesma capacidade de pensar e com a mesma racionalidade que nos é inata. A diferença é que, ao contrário da maioria, ele teve um despertar e decidiu usar o que tinha: decidiu refletir.

O que ele tinha está em todos nós. A nossa capacidade está em nós; ela não é adquirida, ela é revelada. Existe um filósofo, de fato, dentro de cada um de nós. A menos que decidamos refletir, seremos eternos filósofos apenas em potencial.

Como bem escreveu o romancista japonês, Eiji Yoshikawa, em seu livro – Musashi: “Na água que não se juntou, de um poço que não se cavou, brilha a luz da Lua”.

logo refletindo.

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