Retrato da Morte 7º episódio “O passado bate a porta”

“O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente…”

Mario Quintana

Bob Rezende estava cada vez mais instigado pelo Caso Amaral. Novos depoimentos seriam colhidos durante esta semana, desta vez seriam as pessoas que estiveram presentes mo local e queria um relato mais pessoal. Diante disso, diz que os testemunhos serão usados para um livro. Além dos encontros, pediria um relato escrito para cada um deles.

O primeiro foi Mateus M. Cavalcanti. O empresário recebeu Bob com certa arrogância que lhe era peculiar. Apressado, e um tanto eufórico, pois havia fechado um bom negócio pela manhã.

Palavras de Mateus

Lamento que toda essa história repulsiva tenha de ser novamente desenterrada. Meu melhor amigo foi assassinado unicamente por ciúmes. Sinto-me culpado, meu irmão avisou do sumiço do veneno, porém não lhe dei atenção…deveria ter alertado sobre os planos de Vitória, e talvez ele estivesse vivo hoje. Eu sabia… claro que sabia… que Pablo corria perigo de morte… e não fiz nada! Pablo nunca compreendeu inteiramente o gênero de demônio que a Vitória era.

Não era a inocente que todos julgavam no tribunal. Vitória era ruim, se escondia por trás da sua fragilidade, mas era fria e calculista. Não sei se lhe disseram… não é um aspecto vital do julgamento, mas revela quem ela era… o que ela fez à irmã, quando esta era bebê? Tinha ciúmes, compreende. Chegou a desfigurar o rosto de própria irmã ainda bebê…ela gostava sempre de estar em primeiro.

Quando era solteira, gostava de fazer todos nós de bobos, mas acabou ficando com Pablo. Naquela época eu não tinha tanto dinheiro como agora, e meu irmão, era um tolo, sempre bonzinho…Vitória fazia dele gato e sapato.

Pablo era um artista em ascensão na época, um excelente pintor conseguia dar vida as suas obras. Viu alguma das suas pinturas? Tenho cá uma. Venha ver.

 

 

— Aí tem. Esse é o Pablo! Este é “O berro”, um dos seus últimos quadros.

Bob observou em silêncio.  Como explicar a emoção que o quadro suscitava? Porque era emocionante.

— Eu, por mim, nunca entendi muito de arte. Não sei por que razão gosto tanto de admirar aquele quadro, mas gosto.

Pablo era apaixonado por sua arte, cheio de vida e foi privado dela por  uma mulher vingativa e maldosa! O seu casamento foi um inferno prolongado, ele sempre atrás de outras fora de casa, Vitória era insuportável. Tinha a cunhada, Camille, uma adolescente insuportável, sempre aprontando, motivo de muitas brigas entre o casal.

Quando Danny Bond apareceu, também não gostei dela, mas era melhor que Vitória. E confesso que foi muito bom ver Vitória humilhada.

Se despedindo do detetive, afirmou que depois enviaria um e-mail com mais detalhes que pudesse se lembrar.

Felipe ao contrário do irmão era mais tranquilo, e ao mesmo tempo desconfiado.

Palavras de Felipe(Feh)

— É… é m-mórbido como desenterram estas coisas passados 13 anos. Porque não deixam ficarem as coisas como estão? Pablo e eu éramos amigos desde criança, mas é preciso admitir que a sua conduta era, francamente, escandalosa, pobre Vitória. Era um pintor, compreende? Para  ele a pintura estava em primeiro lugar. Há quem diga que era um gênio. Mas, no fundo, desequilibrado.

Ele estava apaixonado por Danny Bond queria casar com ela. Estava disposto a abandonar a mulher e a filha por ela. Mas tinha começado a pintá-la aqui e queria acabar o quadro. E o fato de a situação ser absolutamente insustentável para as duas mulheres implicadas, parece não lhe ter ocorrido.

Danny Bond era uma entusiasta da sua pintura. Mas era uma posição difícil para ela… naturalmente. E quanto à Vitória… eu sempre… enfim, sempre tinha gostado muito da Vitória. Houve um tempo em que… em que tive esperança de vir a casar com ela. Mas Pablo sempre foi mais esperto… Contudo, permaneci sempre ao seu lado.

Cheguei inclusive a conversar com Pablo, disse que ele estava colocando Vitória em uma situação delicada, que pensasse na filha,  mas ele riu como sempre, disse que tudo ficaria bem, só precisava terminar o quadro. Era um egoísta consumado,  no fundo ele estava gostando da situação.

Pobre Vitória, eu deveria ter desconfiado quando ele perguntou sobre minhas plantas medicinais. Ela nunca deu importância a isto antes. Estava em seu limite…coitadinha. O Pablo tinha mulher e uma filha… era com elas que devia ficar.

— A minha interferência não adiantou nada. Mas, por outro lado, eu não sou uma pessoa muito convincente. Nunca fui. Pablo e meu irmão sempre riam de mim… aposto que ele envenenou o senhor contra Vitória, sentia ódio dela. Tenho a sensação… sim, tenho definitivamente a sensação de que ficou vagamente satisfeito por vê-la humilhada.

— O senhor disse que Vitória era uma criatura meiga. As criaturas meigas cometem assassinatos?

— Era uma criatura meiga… mas, seja como for… bem, as brigas entre eles eram muito violentas, sabe. São coisas muito difíceis de explicar… Ela não tinha papas na língua… tinha um modo veemente de falar. Era capaz de dizer “Odeio-te. Quem me dera que morresse”. Mas não significava nada… não implicava qualquer… ação. A única explicação que me ocorre é que a provocação foi num grau extremo. Ela adorava o marido. Nessas circunstâncias, uma mulher é capaz… enfim… de matar.

— Estava tudo acabado… esquecido,e agora veio o senhor., desenterrar tudo…

A propósito tenho aqui o último quadro pintado por ele…É um magnífico… sim, é magnífico… disse, a voz embargada pela emoção:

Danny Bond

Em sua mansão no Morumbi, Danny Bond recebeu Bob Resende mais por curiosidade.  Era uma mulher muito bonita ainda, mas faltava vida nos olhos. Para ela relembrar o passado ao contrário, não foi doloroso, ela parecia renascer das cinzas, tamanho ódio em suas palavras.

Palavras de Danny Bond

É tão estúpido não sentir nada… aquela maldita Vitória me roubou tudo… Fiquei feliz quando ela morreu na prisão, mas ao mesmo tempo queria que ela continuasse viva apodrecendo na cadeia.

E sou vingativa em relação aos que me fizerem mal. Aquela mulher era, aos meus olhos, o gênero mais baixo de mulher que existe. Sabia que pablo gostava de mim… que ia deixá-la, e matou-o só para que ele nunca fosse meu.

Mas decidi avançar para o que viesse a seguir… Durante o julgamento, me atiravam lama, ovos, tomates, como se eu fosse uma criminosa, toda imprensa ficou contra mim, a destruidora de lares. Mas Vitória não era a santa que todos pensavam.

Ela matou-o. O Pablo que queria viver… que adorava a vida. O

ódio não devia ser mais forte do que o amor… mas o ódio dela era. E o meu ódio por ela é… odeio-a… odeio-a… odeio-a…

Para Raspútia, Bob não teve como mentir que pesquisava para um livro. Perto dela se sentia como uma criança.

Palavras de Raspútia

— Quer as minhas recordações do processo Amaral?

Fui contratada para cuidar da pequena Tarsila Rosa e Camille. Gostava muito de Vitória Amaral, pobre senhora casada com aquele traste. O infeliz teve coragem de trazer à outra para dentro de casa. Vitória era uma esposa dedicada, uma boa mãe, cuidava da filha e da irmã o melhor possível.

Há coisas que uma mulher não deve suportar, ela vivia pra ele, perdoando tudo de errado que ele fazia. Pobre Vitória, só fez o que fez porque não suportou tanta provocação e humilhação. Eu não gostava dele e sinceramente teve o fim que mereceu…

Nunca dei palpite porque era apenas a babá, mas às vezes ela desabafava, sentia se desesperada. Eu tinha que cuidar das crianças também, Camille era uma adolescente bem espoleta, sempre aprontando travessuras.

Mas era alegre apesar de tudo, nunca sentiu raiva de Vitória por ela ter marcado seu rosto. Esta sim sentia um grande remorso.

Quando aconteceu o caso, Camille ia estudar em outra cidade, ficou revoltada com Pablo, colocou sal em seu café, ele ficou furioso. Além disso, ela era muito apegada a irmã e estava com raiva dele e da tal Danny Bond.  Tudo aconteceu por culpa dela.

Pelo que soube a senhora seria demitida, sentiu raiva?

Eu seria demitida já que a pequena Tarsila ia ficar na Escolinha o dia inteiro. Mas não senti raiva…

A senhora fala como não houvesse dúvida sobre a culpa de Vitória.

E não há, tenho certeza que ela era culpada, mas fiquei do lado dela, Agora que se passaram tantos anos e ela já não está entre nós ocultei um fato durante o julgamento, para que a pena fosse mais leve. Afinal era por ela que eu deveria ter consideração, não pela polícia. Pobre senhora, foi levada ao seu limite, destruiu sua vida por um safado. Ainda bem que a filha era muito pequena quando tudo aconteceu…

O apartamento de Camille Portinari, era luxuoso e moderno. Ela era uma pessoa segura e firme,e bem sucedida, chegava a intimidar. Se não fosse a cicatriz no rosto seria uma mulher muito bonita. Após saber  que sua sobrinha Tarsila Rosa estava empenhada em reabrir o caso e provar a inocência da mãe, ficou feliz para a surpresa de Bob Rezende, até então todos não só acreditavam piamente na culpa de Vitória, como achavam um erro revirar o passado.

Palavras de Camille

— Não foi Vitória quem matou Pablo, tenho certeza disso. Estou ciente de que as provas circunstanciais são esmagadoras. A minha própria convicção baseia-se no conhecimento… conhecimento da minha irmã. Sei, muito simples e definitivamente, que Vitória não poderia ter matado ninguém. Está a ver isto? (mostra a cicatris) Provavelmente já conhece a história. Foi a Vitória que fez. É por isso que tenho a certeza… sei… que ela não o assassinou.

Uma pessoa nervosa como Vitória era, seria incapaz de premeditar o assassinato do marido infiel.  Ela jogava pra fora sua raiva através das palavras para não cometer o mesmo erro outra vez. Ela sempre dizia: – Vou te cortar em pedaços! Te mato! Mas isso era da boca pra fora.

Eles brigavam muito,o que ninguém reconhece é que eles gostavam de discutir. Eram um casal desse tipo. A maior parte dos homens não gostam. Gosta de paz. Mas Pablo era um artista.

Nunca me deixaram visitar Vitória. Ela proibiu-o. Foi a única vez, na minha opinião, em que demonstrou falta de compreensão. Mas me mandou uma carta: Dizendo que eu ficasse tranquila, que fosse feliz, porque ela estava bem, em paz como há muito tempo não sentia, que uma pessoa deveria pagar pelo que fez. Que se lembrasse dela com carinho…

—Se não foi sua irmã quem matou o marido, que você acha que poderia ter feito.

— Deixe-me pensar. Bem, eu não o matei. E essa criatura, a

Danny, não matou com certeza. Ficou louca de raiva, quando ele morreu.

Raspútia não gostava do Pablo, era uma feminista e odiava o jeito do meu cunhado. Mas no fundo acho que ela tinha uma queda por ele. Mas será suficiente para matar alguém? Duvido.

— O Mateus?  Sabe, acho que estamos simplesmente a falar de probabilidades, ele seria a pessoa mais provável. Não quero manchar a memória da minha irmã, mas um dia a vi saindo do quarto do Mateus. Achei estranho porque sempre brigavam, Vitória ficou pálida….

   Amanhã estreia Danilo Marroni                                             Segunda 01/02 estreia Santos

 

Amanhã Retrato da Morte – Final  

 “A verdade mostra sua face”.

Gracias! 🌹