Segredos da Ilha – Final – O Segredo na garrafa.

Vídeo de abertura quem quiser ver.

 

 

A Ilha do Caboclo estava em todos os noticiários, todos estavam ligados no Cidade Alerta dava picos de 53 na audiência.  O vilarejo do Recreio estava conhecido internacionalmente. Todos queriam saber o massacre na ilha. Jornalistas, curiosos, todos partiam em direção ilha que já tinha sido tomada pelos investigadores da PF.

 

Vander 2015 o ilustre acreano era entrevistado sem parar, e seu bordão jpá estva conhecido em todo país “Na moda”.

 

 

Superboy inspetor, disse com irritação: — Mas isso tudo é incrível! — Dez pessoas mortas numa ilha, e não há ali um só vivente. Isso não faz sentido!

 

— Contudo, aconteceu, Superboy— observou o Chefe de Investigação Criminal da Polícia Federal, Comunicação G. Locutor, imperturbável. Mas alguém deve tê-los matado!

 

— É justamente esse o nosso problema. Nada de esclarecedor no laudo médico, João Luiz e Danilo Marroni foram baleados, o primeiro na cabeça, o segundo vários tiros pelo corpo e no coração. Pastor Jack Cebolli e Santos morreram envenenados. A Sra. Atena Gontijo morreu em

consequência de uma dose excessiva de remédio. A cabeça de Douglas Gordon foi esmagada. Dr. Matt Brandon morreu afogado. Lucas RS teve o crânio fraturado por um golpe na nuca e Angel morreu enforcada.

 

— Como é possível que você não tenha conseguido extrair nada de proveitoso dessa gente da Vila do Recreio? Eles devem saber de alguma coisa!

 

— É uma povoação de pescadores, gente comum e honesta. Sabem que a ilha foi comprada por um homem chamado Olaf… e isso é mais ou menos tudo que sabem.

— Quem abasteceu a ilha e fez todos os arranjos necessários?

— Um sujeito chamado Adrianao. Pablo Adriano.— Mas ele não pode dizer nada, chefe. Está morto.

— Sabe-se alguma coisa a respeito desse tal Pablo Adriano?

— Oh! sim. Sabemos bastante, chefe. Envolvido em muitas falcatruas e tráfico, sujeito barra pesada. Foi ele quem a comprou, embora deixando bem claro que o fazia em nome de um terceiro, não designado.

Comunicação G. Locutor  mexeu-se inquieto na cadeira e disse:

— Quer me dizer que essa gente não desconfiou de nada? Nem mesmo assim?

Não, responde Super Boy e continuou a sua exposição:

— Vander 2015, o homem que transportou os convidados para a ilha, disse uma coisa muito esclarecedora. Declarou ter-se admirado ao ver a espécie de gente que levava na sua lancha. Tudo “na moda” segundo ele. Acho que foi a circunstância de serem os seus passageiros pessoas tão tranquilas e tão normais que o levou a desobedecer as ordens de Pablo Adriano e ir até a ilha quando ouviu falar nos sinais de S. O. S.

Cumunicação suspirou e disse:

— E quanto a esse pendrive que você encontrou na casa? Não descobriu nada que nos pudesse ser útil? E quanto ao conteúdo?

— No pendrive havia várias acusações de assassinatos. Investiguei essas acusações tão bem quanto me foi possível e parecem que fazem sentido, mas não se pode comprovar.  SB

— Aí parece estar à chave da coisa — Olaf escolheu casos que a lei não podia alcançar.

O Inspetor Super Boy continuou impassivelmente  descrevendo as vítimas da Ilha e suas acusações com a sua lista:

— O tal Santos Madruga era um motorista com a mania da velocidade. Teve sua licença suspensa por duas vezes e, na minha opinião, deviam tê-la cassado definitivamente. Isso é tudo que há a seu respeito.

“Chegamos finalmente a Douglas Gordon. — Super Boy hesitou. — Ele era um dos nossos, naturalmente.”— Douglas Gordon não era boa coisa não era boa coisa!

— Sempre achei — respondeu Locutor. — Mas era bastante esperto para fazer das suas e escapar impune. É minha opinião que, no caso Matheus Dias vulgo Teteu, o seu testemunho foi deliberadamente falso e forjou as provas contra o pobre rapaz que se enforcou na prisão, lembro que o rapaz estava prestes a se casar, quando foi acusado perdeu a noiva e se desesperou, não aguentou a pressão.  Fez uma pausa, depois perguntou: — E Pablo Adriano, morreu, diz você? Quando foi isso?

— Já esperava por esta pergunta, chefe. Pablo morreu na noite em que os outros chegaram da Ilha do Caboclo. Tomou uma dose excessiva de remédio para dormir — um barbiturato, segundo estou informado.  Não foi possível determinar se era caso de suicídio ou acidente. Toda essa história é fantástica, impossível! Dez pessoas assassinadas numa ilha que não passa de um rochedo nu cheio de criaturas de pedras… e nós não sabemos por quem, nem por quê, nem como.

— Havia dez pessoas para serem… executadas, digamos. Olaf cumpriu a sua tarefa. Depois, não sei como, desapareceu no ar como um fantasma ou passe de mágica. — Mas, como sabe Super Boy, tem de haver uma explicação. Se o homem não se achava na ilha, não podia ter deixado a ilha; e, de acordo com o relato das partes interessadas, ele nunca esteve na ilha. Bem, então a única explicação é que ele era uma das dez pessoas.

— Pensamos nisso, chefe!  Examinamos essa possibilidade. Para começar, não estamos completamente às escuras sobre o que aconteceu na Ilha do Caboclo. Angel escrevia um diário. Pastor Jack também fazia anotações. O juiz João Luiz tomou algumas notas — em linguagem forense, seca, hermética, mas suficientemente clara. E há também notas de Douglas Gordon. Todos esses relatos combinam. As mortes ocorreram na seguinte ordem: Santos, a Sra. Atena Gontijo, Lucas RS, Talles Gontijo, Pastor Jack Cebolli, Juiz João Luiz . Depois da morte deste, o diário de Angel registra que Dr. Matt saiu da casa durante a noite e que Danilo e Douglas foram atrás dele. Douglas fez mais uma anotação, apenas duas palavras: “Dr. Matt desapareceu”.

Levando-se tudo em conta, podíamos ter aqui uma solução perfeitamente boa. Dr. Matt morreu afogado, lembre-se. Admitindo-se que Matt estava louco, que é que o impedia de matar todos os outros e depois se suicidar atirando-se do alto do rochedo, ou talvez afogar-se enquanto procurava alcançar a costa a nado? “Essa seria uma boa solução… mas não dá certo.

Mas há um detalhe que não se pode passar por alto. O corpo de Dr. Matt foi arrastado acima da linha de preamar. Encontramos ele fora do alcance de qualquer maré. E estava corretamente estendido no chão, muito bem arranjadinho. Dessa maneira, um ponto fica definitivamente estabelecido. Alguém estava vivo na ilha depois que Dr. Matt morreu. O inspetor fez uma pausa e continuou: — A situação seria Dr. Matt “desapareceu” (afogado). Restam-nos três pessoas: Danilo, Douglas e Angel… Danilo foi morto à bala. Seu corpo estava à beira-mar, próximo ao cadáver de Dr. Matt, se fosse apenas uma bala no coração, mas foram vários tiros. Angel foi encontrada enforcada no seu quarto.

O corpo de Douglas estava no terraço, com a cabeça esmagada por um pesado bloco de mármore que é razoável supor tivesse caído da janela que ficava acima. A janela do quarto de Angel.

 

— Já sei o que quer dizer: que foi Angel. Que ela matou Danilo, levou o revólver consigo para dentro, derrubou o bloco de mármore sobre a cabeça de Douglas e depois… enforcou-se. “E isso é muito plausível… até certo ponto. No quarto dela havia uma cadeira com as marcas dos sandálias da moça, foram observadas marcas de algas. Parece que ela subiu nessa cadeira, enfiou o laço de corda no pescoço e depois derrubou a cadeira. “Mas acontece que a cadeira não foi encontrada caída no chão, estava na penteadeira perfeitamente no lugar, longe do alcance. Isso foi feito depois da morte de Angel… por alguma outra pessoa.”

 

“Resta, pois, Douglas; e, se após ter matado Danilo Marroni e induzido Angel a enforcar-se, ele saiu para o terraço e derrubou sobre si mesmo um pesado bloco de mármore atado a uma corda ou coisa parecida… bem, eu simplesmente não acreditarei. Ninguém se suicida desse modo… e, o que mais é, Douglas Gordon não era esse tipo de homem. Nós o conhecíamos

bem…

— Por conseguinte, devia haver alguém mais na ilha. Alguém que pôs tudo em ordem depois que o negócio estava terminado. Mas onde estava ele durante todo esse tempo? E para onde foi? Os habitantes do Recreio estão absolutamente certos de que ninguém podia ter deixado a ilha antes da chegada do barco de salvamento. — Mas, nesse caso, quem os matou?

 

Muitos curiosos conseguiram chegar a Ilha, faziam Selfies com os investigadores, pareciam que estavam em um Show, adoravam a desgraça e por aparecerem na TV.

 

Uma garotinha muito lindinha chamada Ana Carla adepta da sustentabilidade recolhia latinhas e garrafas na areia,  indignada que pessoas sujassem as praias e destruíssem a natureza. Ao mostrar para sua mãe  os lixos recicláveis, esta repara que tem uma garrafa com uma estranha mensagem… “Por favor, entregue para Polícia Federal”

 

 

 

 

 

Comunicação G. Locutor e Superboy leem o manuscrito.

 

Há  muito tempo percebi que minha natureza era um aglomerado de contradições. Tenho, para começar, uma imaginação incuravelmente romântica. O costume de jogar ao mar uma garrafa contendo algum documento importante foi dos que nunca deixaram de me fazer vibrar e é por isso que adoto agora esta linha de conduta: escrever minha confissão, encerrá-la numa garrafa, lacrar esta última e lançá-la às ondas.

 

 

Há, penso eu, uma probabilidade entre cem de que minha confissão seja encontrada — e então (ou estarei a gabar-me?) um mistério até agora sem solução será finalmente esclarecido.

Nasci com outras características além de minha fantasia romântica. Sinto um prazer positivamente sádico em presenciar ou em causar a morte. Mas, ao lado desse, há um traço contraditório — um acentuado sentimento de justiça. O crime e o castigo sempre me fascinaram.

 

Quando, no devido tempo, cheguei a presidir um tribunal, esse meu outro instinto secreto teve campo para desenvolver-se. Ver um miserável criminoso estorcer-se no banco dos réus, era para mim um prazer indescritível. Note-se que eu não experimentava prazer em ver ali um homem inocente.

Tenho fama de ser um juiz implacável, mas isso é injusto. Sempre procedi de modo estritamente justo e escrupuloso ao fazer o sumário de um processo.

Ultimamente percebi que uma mudança se operava dentro de mim — um desejo de agir em vez de julgar. O que eu queria, em suma, era cometer eu próprio um assassinato.

 

Eu precisava… precisava… precisava cometer um crime! E, o que é mais, não devia ser um crime comum! Devia ser um crime fantástico — algo de estupendo e sem precedentes!

Então, subitamente, veio-me a ideia  despertada por uma observação fortuita ouvida em palestra. Que devia ser grande o número de crimes de morte que escapavam à alçada da lei. O Palestrante era um médico amigo da minha família desde que eu era garoto.

Em particular me disse estar convencido de que a morte de um cliente se devera à supressão de uma droga revigorante por certo casal que se achava a serviço do referido senhor e que receberia um legado considerável por sua morte. Era uma coisa, explicou-me ele, que não havia nenhum jeito de provar, e, contudo tinha plena certeza de que assim fora.

Isso foi o princípio de tudo. De repente, vi com toda a clareza o caminho a seguir. E resolvi cometer, não apenas um assassinato, mas um assassinato em grande escala.

Vieram-me à memória uns versos de minha infância — a conhecida história dos dez caboclinhos. Esses versos me haviam fascinado assim me interessei em comprar a Ilha do Caboclo.

Comecei, secretamente, a recrutar vítimas.

 

 

 

 

Durante o tempo que passei um hospital, inteirei-me do caso do Dr. Matt: uma mulher gritava no saguão do hospital jurando vingança, que o crime não ficaria impune, a mulher foi retirada pelos seguranças, mas aquelas frases ficaram na minha mente…

 

Descobri sem dificuldades quem era o médico mencionado e quem a paciente, uma moça chamada Simplesmente Rosa, filha da de Julia Pere…  no C…, a mulher que gritava no hospital.

 

Fiquei sabendo do caso do delegado por um guarda falante, que começava trabalhar recente e tentava se enturmar com os colegas.

 

Corria boatos que o bombeiro Danilo Marroni, considerado herói ainda, havia abandonado vítimas de um resgate e seus colegas de profissão deliberadamente para morrer, e ainda por cima fugindo com algumas pedras preciosas.

Pastor Jack Cebolli e sua filha, soube através da minha secretária do lar que era religiosa e estava revoltada com a atitude do seu pastor.

 

Santos Madruga foi por mim escolhido entre um grande número de pessoas que haviam cometido crimes semelhantes no trânsito. Sua irresponsabilidade como motorista fazia dele, segundo pensei, um tipo perigoso para a comunidade e indigno de viver.

O ex-Inspetor Douglas Gordon apresentou-se, por assim dizer, naturalmente. Alguns colegas meus, discutindo o caso Teteu Dias levaram-me a encarar com seriedade o seu crime.

 

Finalmente, tive conhecimento do caso de Angel.  Estava no restaurante sentado em uma mesa sozinho,  um moço de boa aparência e família conhecida na sociedade paulista, chamado Guilherme O’Donnell.

Guilherme sentia-se muito infeliz e, para aliviar suas mágoas, havia ingerido considerável quantidade de bebida. Estava na fase sentimental das confidencias alcoólicas.

 

 

— O senhor tem razão — disse ele. — Um assassinato não é o que muita gente pensa, conheci uma assassina… E, o que é mais, estava apaixonado por ela, era a babá do meu irmão Magnus… Deus me perdoe, às vezes penso que ainda estou… Acontece que ela matou mais ou menos por minha causa…  As mulheres são demônios… perfeitos demônios… Quem pensaria que uma moça como aquela… uma moça linda, alegre, direita… quem pensaria que ela fosse capaz de tal coisa? O senhor pensaria? Que ela levasse um garoto para o mar e o deixasse afogar-se… O senhor pensaria que uma mulher era capaz de tanto? — Está certo de que ela fez isso? — perguntei.

O rapaz respondeu — e, enquanto falava, pareceu passar-lhe subitamente a embriaguez: — Tão certo como de que dois e dois são quatro. Ninguém jamais desconfiou disso, mas eu adivinhei logo que pus os olhos nela… depois, quando voltei… E ela viu que eu sabia…

 

Eu precisava de uma décima vítima. Encontrei-a num homem chamado Pablo Adriano. Entre outras coisas, traficava com entorpecentes e era responsável pelo vício da filha de uns amigos meus.

 

Durante todo esse tempo de busca o meu plano viera amadurecendo gradualmente. Estava agora completo, e o remate foi dado por uma entrevista que tive com um médico de Mateus. Estava com uma doença incurável… Mas decidi que não teria uma morte lenta e arrastada como fazia prever a natureza da enfermidade. Não, minha morte havia de ocorrer em meio a uma aventura. Eu viveria antes de morrer.

Passemos agora ao mecanismo do crime da Ilha do Negro. Foi-me bastante fácil adquirir a ilha, encobrindo-me sob o nome de Pablo Adriano. Ele sabia como fazer coisas ilícitas.

Catalogando as informações que reunira sobre minhas futuras vítimas, pude arranjar uma isca apropriada para cada uma delas. Nenhum de meus planos fracassou. Todos os meus convidados chegaram à Ilha do Caboclo na data marcada. Eu estava entre eles.

 

Já havia decidido como me livrar de Pablo Adriano. O homem sofria de indigestão, dei-lhe uma cápsula para tomar ao deitar-se, cápsula essa que, segundo lhe disse, havia produzido efeitos maravilhosos sobre minha gastrite. Ele aceitou sem hesitar, era um tanto hipocondríaco.

A ordem das mortes na ilha fora objeto de um estudo especialmente cuidadoso. Levei em conta que, entre os meus hóspedes, havia diferentes graus de culpa. Os menos culpados seriam os primeiros a morrer e não sofreriam a prolongada tensão mental e o medo reservados aos criminosos mais frios.

Santos e a Sra. Atena Gontijo morreram na mesma noite, um instantaneamente, a outra durante um sono tranquilo. Eu reconhecia que Santos era um indivíduo irresponsável, mas não era totalmente mal.

Quanto a Sra. Atena Gontijo, não tinha dúvida de que procedera em grande parte sob a influência do marido.

Eu tinha uma certa quantidade de veneno em meu poder, e não tive dificuldade em colocar no copo vazio de Santos, em meio à confusão geral causada pela mensagem do pendrive.

Posso dizer que observei atentamente as fisionomias de meus convidados durante a denúncia e que não tive a menor dúvida, graças à minha experiência no foro, de que todos eram culpados.

 

Por ocasião de recentes crises de dores fora-me receitado remédio de uso controlado, quando Talles trouxe um pouco de água para a sua mulher, depôs o copo em cima de uma mesa, e ao passar por essa mesa coloquei uma forte dose do remédio. Foi fácil porque, naquela ocasião, ninguém suspeitava ainda de nada.

O delegado Luca teve uma morte indolor. Foi preciso, naturalmente, escolher com muito cuidado o momento de deixar o terraço, mas tudo correu às mil maravilhas.

Conforme eu tinha previsto, deu-se busca à ilha e descobriu-se que nela não havia ninguém a não sermos nós sete. Isso criou imediatamente uma atmosfera de suspeita.

De acordo com o meu plano, eu iria precisar dentro em pouco de um aliado. Escolhi o Dr. Matt para esse papel. Era um homem crédulo (feelings Rosa), conhecia-me de vista e de reputação, e jamais poderia conceber que um homem de minha posição fosse um assassino! Todas as suas suspeitas se concentravam em Danilo Marroni e na Angel, achava que os dois eram cúmplices, e eu fingia concordar com ele. Dei-lhe a entender que tinha um plano graças ao qual seria talvez possível apanhar o assassino, levando-o a incriminar-se por si próprio.

 

Matei Talles de manhã do terceiro dia na Ilha. Ele estava tirando lascas de lenha para acender o fogo e não ouviu os meus passos. Encontrei a chave da sala de jantar no seu bolso, pois ele a tinha fechado na noite anterior e tirei outro caboclinho da bandeja.

Na confusão que se seguiu ao descobrimento do corpo de Talles, entrei no quarto de Danilo e peguei seu revólver. Sabia que ele estaria armado: eu mesmo dera instruções a Pablo Adriano para que lhe sugerisse essa precaução ao contratá-lo.

Enquanto tomávamos café, coloquei minha última dose de remédio na xícara do Pastor Jack. Deixamo-la na sala de jantar. Voltei ali um pouco mais tarde  encontrei-o quase inconsciente e foi fácil injetar-lhe uma forte solução de veneno. A história da abelha foi, realmente, um tanto infantil… Mas, sabem? De certo modo isso me causava prazer.  Agradava- me aderir tanto quanto possível ao texto dos versos.

Já havia escondido o revólver em lugar seguro na lata de Nescau do Talles e não tinha mais veneno nem remédios em meu poder.

Avisei então a Dr. Matt que chegara o momento de pôr em prática o nosso plano. Em resumo, tratava-se do seguinte: eu aparentaria ser a próxima vítima. Isso talvez pusesse o assassino fora dos eixos, levando-o a denunciar-se… Mas, de qualquer forma, depois de passar por morto eu poderia andar pela casa e espreitar os passos do assassino desconhecido.

O êxito foi completo. Angel quase deitou a casa abaixo com os seus gritos quando foi roçada pela alga, que eu anteriormente havia pendurado no seu quarto. Todos foram socorrer a pobre moça e eu assumi a minha pose de assassinado.

Quando me encontraram, o efeito foi além dos meus desejos. Dr. Matt tinha um talento artístico natural, deveria ser galã da Record,  desempenhou a sua parte como perfeito profissional que era. Levaram-me para cima e deitaram-me na minha cama. Ninguém se preocupou comigo, pois todos estavam apavorados, com medo uns dos outros.

Tinha marcado um encontro com Dr. Matt fora da casa durante a madrugada.  Leveio-o para a beira do rochedo, nos fundos, dizendo que dali podíamos ver se alguém se aproximava de nós e que não poderíamos ser avistados da casa. Matt caiu na armadilha como um patinho… rsrs. Foi facílimo. Soltei uma exclamação dizendo-lhe que olhasse lá embaixo: aquilo não era alguém se escondendo? Ele se inclinou para olhar. Um rápido e vigoroso empurrão fê-lo perder o equilíbrio e cair no mar. Voltei para a casa. Deve ter sido dos meus passos o ruído que Douglas  ouviu.

Decorreram alguns momentos antes que viessem no meu encalço. Dobrei simplesmente a esquina da casa e tornei a entrar pela porta envidraçada da sala de jantar, que deixara aberta. Fechei-a e em seguida quebrei o vidro. Subi então a escada e estendi-me de novo na minha cama.

Calculei que eles tornassem a revistar a casa, mas não acreditava que examinassem com atenção qualquer dos cadáveres. Quando muito, afastariam o lençol para certificar-se de que não era Matt fingindo-se de morto.

Esquecia-me de dizer que havia devolvido o revólver ao seu lugar, no quarto de Danilo.

Chegou então o momento que eu tinha previsto: três pessoas tão assustadas umas das outras que tudo podia acontecer — e uma delas tinha um revólver. Fiquei a observá-las das janelas da casa. Quando Douglas se aproximou sozinho, já eu estava com o grande bloco de mármore preparado. Fim para Douglas Gordon…

Da minha janela, vi Angel matar Danilo. Uma moça ousada…Sempre achei que seria uma adversária digna dele. Assim que a coisa aconteceu, fui preparar o palco no seu quarto de dormir. Era um interessante experimento psicológico. A consciência de sua culpa, o estado de tensão nervosa natural numa moça que acaba de matar um homem, mais a sugestão hipnótica do

ambiente, bastariam para levá-la a suicidar-se? Parecia-me que sim…Angel enforcou-se diante de meus olhos, lógico que dei uma ajudinha, ela ia desistir… Ela ia tirar a corda do pescoço quando me viu..derrubei a cadeira longe com um chute, kkkkk

E agora chegamos à fase derradeira. Arrumei a cadeira, procurei o revólver e encontrei-o no alto da escada, onde a moça o deixara cair. Tive o cuidado de conservar na arma as suas impressões digitais.

E agora?

Vou terminar de escrever isto. Introduzirei estas folhas de papel numa garrafa, que vedarei com lacre e lançarei ao mar. Por quê? Sim, por quê? Foi minha ambição inventar um crime misterioso que ninguém pudesse resolver. Todo artista gosta que sua arte seja conhecida mesmo que póstuma.

Até aqui, presumi que o mistério da Ilha do Caboclo permaneceria insolúvel. Pode acontecer, naturalmente, que a polícia seja mais sagaz do que suponho.

Existem, em suma, três pistas.

Pista número um: a polícia sabe perfeitamente que Edivo Macedo era culpado. Sendo assim, uma das pessoas na ilha  na ilha não era um assassino em qualquer acepção da palavra, donde se segue este aparente paradoxo: a pessoa em questão devia logicamente ser o assassino.

A segunda pista está no poema e no lençol do Santos, alguém estava se passando por morto e andando pela casa.

 Terceira pista – Quando  Dr. Matt encarou-o e disse quase maquinalmente: — Devemos ter muito cuidado… De súbito, calou-se. Se os outros fossem espertos saberia que o Dr. disse isso em meu ouvido.

Depois de confiar a garrafa e sua mensagem ao mar, voltarei para o meu quarto e me deitarei na cama.

Amarrarei o revolver em um cordão elástico…Eis o que acontecerá, segundo penso:- Minha mão, envolta num lenço, apertará o gatilho. Minha mão cairá para um lado. O revólver, puxado pelo elástico, recuará até a porta , o elástico, solto, voltará ao seu lugar natural e ficará inocentemente pendurado no teto longe da minha cama,  um lenço caído no chão não provocará nenhum comentário.

Serei encontrado corretamente estendido na minha cama, morto por um tiro na testa segundo foi registrado pelas outras vítimas. Quando nossos corpos forem examinados, já não será possível determinar com exatidão a hora da morte de cada um. Quando o mar ficar mais calmo, virão barcos e homens da terra firme. E encontrarão dez cadáveres e um problema sem solução na Ilha do Caboclo.

 

 

Assinado: João Luiz

Obrigada pela atenção, carinho e apoio de todos

que acompanharam a série, lendo ou/e comentando!

Amanhã post especial  com as curiosoidades

sobre a série e bastidores.